Wednesday, October 13, 2004

AMOR, LITERATURA, LITERATURA, AMOR

Grão Mogol, 800

Por Márcia Novaes

Sempre que me perguntam por que escrevo, sinto a tentação de romancear uma explicação que justifique a existência de todo mortal. Mas lembro de uma proposta que me fiz há anos: ser justa com o de dentro e com o de fora. Não falsificar passados ou idealizar futuros. Fecho então os olhos e me vejo em uma sala. Um sofá amarelo. Lustres de pingentes que parecem de cristal mas são apenas vidro, janelas com cortinas e grades formando desenhos. Latidos e movimento de carros do lado de fora. Cheiro de bolo e pipoca. E um som muito próximo: tec-tec-tec. Som que vem detrás de uma estreita porta. Da sala há a passagem para um quarto. Uma porta tão discreta que mais parece uma fuga, um descuido, um simples detalhe. Atrás dessa porta, o som repetitivo, um ritmo diferente. Na vida teria sempre a tendência a me apaixonar pelo som improvisado, cuja cadência criativa contrariaria opções óbvias e previsíveis. Seria uma apaixonada por jazz.

Quando aquela estreita porta se abria, outra paixão de vida inteira se mostrava. Diante de meus olhos ainda ingênuos e infantis, uma máquina de escrever, negra como a escuridão. Ali estava o som das vozes dos homens. Seus sentimentos, mágoas, rancores, pausas. A verdadeira música da vida. Ao lado desse monstro de ferro e sonhos, meu avô. A pele branca contrastando com a máquina negra. Os olhos azuis e o rosto redondo.

Sempre que me perguntam porquê escrevo, viro o rosto em direção a uma Belo Horizonte que não existe mais. A uma casa na Rua Grão Mogol, que não existe mais. A uma sala, uma Remington e um avô que não existem mais. Ouço ao fundo o som de um trompete, uma bateria improvisando solos. Então abro os olhos e digo que escrevo para que haja sentido. O resto é pura invenção.

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O brilho das coisas


Por Francisco malta



José Martins, vulgo Zé Tatu, trabalhava na fazenda olhos d’água, Distrito de Esmeralda do município de Santana dos Ferros em Minas Gerais. Capinava distraído quando a enxada bateu em uma pedra verde e brilhante. Era tão bela que despertou sua curiosidade. São coisas do destino: casualmente ele acabava de descobrir uma das maiores esmeraldas do mundo.

Seu Jojô, homem culto, integro, de peso, meu avô teve a ventura de gozar de sua amizade. Para se aquilatar sua postura moral, vem-me à lembrança um fato a que assistia, quando, em uma reunião na sua fazenda, festejávamos seu aniversário.

Descontraidamente, ao pé da escada, aproximou-se Zé Tatu, conduzindo uma vasilha com azeite de mamona e minhocas, ungüento para curar boi. Uma das filhas de seu Jojô, brincando cortejou o empregado.

“Caso contigo se tomar esse ungüento”

Ao que Zé tatu retrucou.

“Você sustenta deveras ?”

Ela concordou.

E, para espanto das pessoas presentes, tomou grande parte do remédio. A moça desapontada e surpreendida alegou que era brincadeira e não casaria com ele.

Seu Jojô, assistindo à cena, com toda seriedade disse a Zé Tatu:

“A moça é sua”.

Quanto a esmeralda, Zé Tatu não deu muita importância. Após o casamento com a filha do fazendeiro, mudou-se para arredores da fazenda. Hoje, a esmeralda fica escorando a porta da sala.

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A busca

Por Guilherme Tolomei

Atravessou a rua e ela continuava a segui-lo. Pensou em parar, mas, ao contrário, aumentou a velocidade. Talvez fosse ele que a seguisse, já não sabia. Há quanto tempo estava em seu encalço? Horas, dias, anos, segundos? Ela não lhe era estranha. Os olhos verdes desbotados o faziam lembrar de um futuro remoto. Poderia ser uma amiga. Falariam sobre as possibilidades que jamais tiveram de se conhecer. Perguntaria seu nome e ela responderia com uma sílaba incongruente. Recordariam instantes indeléveis das caminhadas nunca realizadas. Lembrariam do momento que nunca houve. Mas apenas continuou andando.

Às vezes, sentia a perna dela lancinante e, respeitosamente, diminuía o passo. Outras vezes, andava por ruas iguais para ter certeza que estava perdido. Ambos estavam perdidos. Andariam sem destino. Viajantes solitários de um labirinto permanente. Entretanto, as casas ao redor envelheciam. As tintas das paredes adquiriram um tom mais claro. Os contornos desbotados proclamavam a independência da forma. Tudo parecia sumir. Um deserto. Uma folha em branco.

Não obstante, ele entrou no café “Les Lettres”. A mulher já estava sentada na última mesa. Olhou-o, como se olhasse todos e, ao mesmo tempo, ninguém. “Você é o escritor?”, “Sim”. ”Esse talvez seja o único propósito da perseguição. Você sabe o que eu tenho para te dizer?”, “Você veio me dizer que eu não existo”, completou rindo. Aproximou-se dela e sussurrou em seu ouvido: “E provavelmente, você também não” Depois começou a rir cada vez mais alto, até que o riso e a mulher se misturassem, tornando-se uma coisa só.

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Amor?

Por Guilherme Tolomei

O encontro deu-se no metrô.

- Eu quero terminar tudo

- Mas como assim terminar tudo?

- Você entendeu.

- Calma aí, eu...

- Não podemos continuar assim.

- Assim como?

- Será que é tão difícil aceitar o fim de um relacionamento? Será que você não percebeu o tédio, a incomunicabilidade, a ausência?

Há uma longa pausa.

- Não pode ser.

Acredite, dessa forma será melhor.

Você está brincando

Sem vexame, por favor. Vamos tornar as coisas mais fáceis.

Não sei do que você está falando, não sei quem você é, nem ao menos sei como se chama.

Já esqueceu até como me chamo! As coisas estavam piores do que eu imaginava.

Volto a repetir, senhor, não te conheço. Nunca te vi na minha vida.

Não pensei que você tivesse tanta mágoa de mim.

O senhor deve ter algum problema.

Além disso, me ofende.

Calma, não é a minha intenção.

Nunca é a sua intenção. Você quer que eu ache que não tenho passado e, na verdade, sequer existo.

Não! Não.

A partir daí, vou criar inúmeros traumas. Seria o seu grande triunfo.

Mas pode ser que eu seja a culpada. Posso ter descoberto meu desatino. Minha mãe vai perguntar como foi o encontro com o meu namorado. Mas que namorado? Eu tenho namorado? Vou descobrir que a minha mãe já morreu há dez anos. Ou será que não morreu?

Calma, também não precisa chorar. Eu estou aqui. Lembra-se daquele dia em que...

Os dois começaram a conversar. Ela falou do robalo com alcaparras que sabia fazer e, ele contou como se conheceram em uma exposição de pintura.

Divertiram-se. Foi então que ele olhou fixamente dentro dos olhos dela, como se ali existissem todas as verdades ainda não ditas, beijando-a.

E nada mais aconteceu. Ele se virou de costas e foi embora. Desde o início, já estava decido a terminar tudo.

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Esse indecifrável prazer da leitura

Por Ronize Aline

Ler. Nem todos lêem. Não falo do passar a vista descompromissadamente pela superfície plana do papel. Refiro-me àquela sensação de êxtase alcançada apenas por quem se entrega sem resistência ao que a leitura oferece. Quem abre um livro armado de precauções, cuidados, preconceitos e um auto-controle indisfarçável, não vive a verdadeira experiência de ler.

Sou barriga-verde. Nasci em Rio do Sul, interior de Santa Catarina. Como em toda cidade pequena, as coisas demoravam a dar as caras por lá. Não seria diferente com a literatura. Uma das (raras) saídas era o Círculo do Livro, do qual meu pai era sócio e que tinha a revista mais aguardada lá de casa.

Desde pequena me acostumei a ver meu pai lendo alguma coisa. Havia nele um ar de satisfação com o que estava fazendo. Assim, para mim a leitura sempre esteve associada ao prazer. Passei a admirar esses momentos e a querer fazer parte deles. Como costuma dizer Ana Maria Machado, o gosto pela leitura nasce a partir do exemplo.

Um dia meu pai revelou-me uma surpresa guardada há anos: uma enorme caixa de papelão com centenas de revistas em quadrinhos meticulosamente amarradas com barbante. Ele fizera aquela coleção para quando eu soubesse ler e, ante meus olhinhos surpresos, começou a desamarrar as revistas espalhando-as pelo chão. Sem saber por onde começar, eu folheava uma a uma extasiada. Aquilo tudo era muito mais do que poderia imaginar. Um mundo inteiro de estórias para ler.

Mas, houve um tempo em que esse mundo tornou-se pequeno demais. Então vieram os livros. Não lembro ao certo quantos tive do Círculo, mas ainda guardo a lembrança do primeiro que, confesso, escolhi pelo título. Marcelo Marmelo Martelo tinha um som gostoso, como se as palavras ficassem brincando de roda dentro da boca da gente. E, por ele, me apaixonei duas vezes (sem que uma tenha se sobreposto à outra). A primeira foi ainda criança. Que garoto esperto esse Marcelo! Como eu não havia pensado nisso, dar às coisas o nome do que elas fazem ou para que servem? A segunda vez foi quando comecei a me interessar pelos meandros da escrita. Que garota esperta essa Ruth! Como eu não havia pensado nisso, escrever sobre um menino que questiona o nome das coisas?

Me formei em jornalismo e o texto exigido pela profissão pareceu sufocar o gosto por contar estórias. Por um longo tempo abandonei a idéia de escrever ficção. Mas essa idéia não me abandonou e, mal me distraí, voltou a fazer-se presente. São contos, romances, crônicas que parecem ter descoberto uma brecha em meus afazeres para se lançarem afoitas ao papel. Então me acomodo, deixo as palavras fluírem e fico à mercê de seus caprichos que, assim como a leitura, tanto prazer me dão.

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AA-mor

Por Liana Rodrigues Dantas

Tendo a tv

O dolby-sorround a transforma

Num show sem igual

Pois, afinal,

O amor é estranho e sem forma

O amor é anormal.

(Ruído rosa, Jonh, Pato Fu)

Acordar às duas horas da matina pode ser caso de pânico, telefonema secreto, fome, dor de barriga e também amor. Escutar a música que mais odeia, lavar a louça com tesão, escovar os dentes sem preguiça, comprar um novo cinto e fazer um novo corte de cabelo podem ser plenas transformações. E também amor.

Descer toda a Avenida 28 de setembro sob o sol latejante lá pelas 16h e dobrar a esquina do Morro dos Macacos pra visitar uma cartomante, depilar o peito e fazer limpeza de pele com leite Rosa pode ser a nova tendência (exótica) metrossexual e também pode ser amor!

Cinta-liga, Viagra, depilação a laser, lipoescultura, cera quente, moldar sobrancelha com pinça, pode ser (in locus) doloroso, mas também, incrivelmente, poder ser amor!

Lelequinho, gatito, fofusca, neném, kekinho é, segundo alguns manuais de etiqueta rigorosamente ridículo, porém, indiscutivelmente, também, pode ser amor!

O amor pode ser também todas as coisas que não se conhece, que não se experimentou; as esquinas e ruelas abandonadas, vendedores de paçocas, de vassouras, de pamonha. Pode ser o ar pálido da vendedora de churros, a postura desconfortante da cobradora de ônibus, pode ser o delicioso sofá do Odeon.

O amor exprimi democraticamente o conceito plural à respeito deste tal signo ‘amor’ de qual todos comentam. Pode ser tudo, uma regozijante e esplêndida experiência transformadora e também pode ser nada demais, como esta crônica.

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O outro lado

Por Maricéa Martins Zwarg

Há mais de um ano não o vê. Na intimidade, há quase dois, lembra-se bem. A última vez, almoçaram no restaurante japonês, ele derramou a sopinha “misoshiro”, ela pegou outra com carinho. Pouco antes, no caixa eletrônico do banco, o guarda recuou o corpo para deixar passar seu olhar apaixonado na direção dele, que sempre tão distraído, nem notou.

Se ainda é amor o que a leva a recordar, ou se é só a romântica lembrança do amor, tanto faz. O outro lado, o concreto, nunca conheceu, só pôde imaginar. Sua rotina, sua casa, cachorros, filhos e companheira, sua vida social, os compromissos e responsabilidades, suas construções, projetos e desenhos, o mundo do qual ele às vezes escapa através do abstrato, da música, e de alguém diáfano, como ela lhe pareceu. Só viu o lado a ela oferecido: a ilusão, a noite, as canções, o sonho, o amor fugidio em tempo curto, e tanta, tanta ternura. Lilith, a lua negra.

Alguém bem lhe disse que deve-se desconfiar da ternura. Mas ela é solar e precisava amanhecer. E agora, que há tanto não o vê e à tão grande distância, há como um fio invisível volta e meia ligando seu pensamento ao dele. Ela vive o dia, o concreto, a claridade, namora, trabalha, passeia, mas sobretudo à noite, ele, o outro lado, volta pelas mãos de Lilith, e vem a ternura, a voz, a risada, as mãos, os abraços e beijos, e as canções... E ela, como mãe zelosa passando remédio no machucado do filho, diz a si mesma: vai sarar logo, calma, paciência, paz e ciência, tudo passa...

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Criação, doação e recepção

Por Maricéa Martins Zwarg

Escrever, compor, pintar, fotografar... Há quem diga que não exista momento mais precioso e prazeroso que o da criação, o instante em que o artista consegue sintetizar e organizar aquela profusão de sentimentos e idéias em algo traduzível para o outro, algo real. Concordo em parte. O Criador, o Uno, mandou Moisés dizer: amar a Deus sobre todas as coisas. Não contente em criar tudo o que há, ele pede retorno, ou melhor, ordena. O artista, microcosmo de Deus, também o deseja. A recepção é tão importante e até complementar à criação. É aquele momento maravilhoso em que sabemos que atingimos o outro, emocionamos, saculejamos, incomodamos, fizemos refletir.

O que não dá pra agüentar é a indiferença. Resposta nenhuma. Só criar é meio prazer, e solitário. Prefiro a “promiscuidade” criativa, esse dom que o artista tem de dar prazer ao mesmo tempo a muitas pessoas e receber de volta, sejam elogios, críticas, aplausos, caretas, cartas, “dindim”. O melhor momento, para mim, é essa Santíssima Trindade: criar, doar e receber. Acho que Deus não se incomoda de que maneira o amem, e que nomes lhe dão; tristeza mesmo, para Ele, dever ser um ateu.

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Amor de chegada e partida

Guilherme Sucena

Sábado. Seis e quinze da manhã. Hora de qualquer carioca são estar dormindo, mas eu estou chegando na rodoviária Novo Rio. “Desculpe”; digo a uma senhora que está parada a minha frente indecisa. Vim pegar... “Ai !”, uma bolsa daquelas imensas que cabem um corpo, sem que para isso tenha que dividi-lo em partes, bate na minha cabeça. Pela pancada não é um corpo que está ali dentro; ainda bem.

Mais dois passos e um senhor se aproxima e pergunta onde pode comprar caneta. O que será que ele precisa escrever no meio daquele mar de gente? É muita gente. Acho que todo o Rio acordado esta nesta rodoviária.

Meu estomago me lembra que não tomei café, com toda a correria que foi para não chegar atrasado. É muito deselegante deixar alguém esperando, ainda mais quando este alguém viajou a noite toda em um banco de ônibus – por mais Leito Ultra Especial Plus Max que este seja.

“Por favor, um mate e uma porção de pão de queijo?!” Sento em uma mesa e me lembro que um amigo outro dia falou: “Quer escrever? Observe mais a vida.” Não que eu não faça isso, faço e muito, mas nunca com o olhar de um candidato a escritor de crônicas e contos. Achei o momento perfeito para colocar isso em prática.

Não demorei muito para me tocar olhando todo aqueles abraços, beijos e sorrisos a meu redor, o real motivo porque alguém suporta tantas horas dentro de uma lata sobre rodas, mesmo Leito Ultra Especial Plus Max com ar condicionado: amor. É isso, amor é o motor interno que nos tira da cadeira de casa um dia e nos leva ficar de pé em um guichê para comprar uma ou mais passagens. Amor de mãe, pai, tia, primo, avó, avô, amigos e, finalmente, de homem e mulher. A ordem dos tipos de relação não necessariamente tem a ver com o nível de importância que imputo pessoalmente, isso depende de cada um consigo mesmo. Alguns tem tios que amam, outros preferem os avós, outros perderam os pais, outros toda a família e, portanto, uma nova família é montada, seja com alguém, seja com amigas/os.

Assim como o tipo e nível de cada relação varia, também variam as motivações: tesão, dinheiro, interesse, carência, real amor às vezes recíproco, às vezes não.

Quando estava pensando sobre falta de amor eis que surge à minha frente um cara que é a imagem perfeita da falta de amor completo: seja amor próprio, seja amor por ou de terceiros. Foi tão sincronizado pensamento e aparição que desconfio do que veio primeiro; não sei se meu olho viu, mas meu cérebro demorou alguns segundos para registrar, afinal são seis e vinte e cinco da manhã de SÁBADO! Ou se ele realmente surgiu depois que eu havia pensado sobre a falta de amor. Mas, o que interessa é que ele, o cara, já estava ali sentado; sei disso pois já tem, acreditem, um chope à sua frente, seis e meia da manhã, e, um cigarro, para acompanhar. Kamikaze! Pensei eu. Até isso prova uma certa falta de amor próprio - devaneio um pouco mais em meus pensamentos.

A bem da verdade ele não surgiu do nada na minha frente, tomei conhecimento de sua existência porque este foi descortinado frente a meus olhos após eu acompanhar com a devida atenção uma mulher que, se esta história se passasse em um deserto, eu juraria ser miragem. Pela hora pode ser tudo um sonho... Será?

Esqueci o sujeito, que pelo visto ficaria ali para sempre, e segui observando em partes a dita miragem do café da manhã; meu critério de observação não seguiu a já pré-estabelecida ordem didática: cabeça, tronco e membros. Meu radar foi guiado um pouco por meu interesse pessoal da anatomia feminina, que agora não vem ao caso comentar, mas também, um pouco, em verdade muito, atrapalhado pelo mundaréu de pessoas que se interpunham entre mim e aquela visão colossal. Tive que me contentar com o que me era permitido ver e, devo dizer, fiquei satisfeito. Muito satisfeito.

De repente um grito rouba minha atenção por uns segundos e, quando volto, percebi que tinha perdido de vista a mulher/miragem. Insisti, procurei por uns minutos e... Nada. Tinha realmente sumido. Me conformei, devia ter ido embora e nunca mais a veria. Segundos de tristeza e alguns mais de desânimo tomaram conta de mim mas, o que fazer, a vida é assim.

Procura daqui, procura dali. Cenas lindas de encontros e reencontros trazem milhares de possíveis histórias à minha mente. Fosse eu um taquígrafo, talvez tirasse daqui uns sei lá quantos contos por hora. Pensei e decidi: se um dia tiver meu espaço em jornal, revista ou até mesmo livro e, me vir sem inspiração, venho a rodoviária. Aeroporto também serviria mas acho que é menos dramático. Na grande maioria das vezes, as viagens são mais curtas e as pessoas – algumas – mais insossas e enquadradas em padrões sociais tornam tudo meio sem sal.

Opa!!! Um casalzinho se beija calorosamente. Uau! Fiquei até, confesso, com uma certa inveja. Perai!!! Puta! Um surfista quarentão e sua prancha long board passam na minha frente e bloqueiam a visão romântica que estava tendo. O que aconteceu ? Estou sem entender até agora. Assim que a prancha acabou de passar procurei o casalzinho romântico e eles estavam quase saindo na porrada, intempéries do amor, acho que nunca vou entender, ainda bem.

Outra mulher linda passa pela minha frente. Apesar de vestida de forma meio esquisita e do grande número de gringos* por perto dela, a nova deusa - como sou volúvel - tem a pele morena que somada a bunda, não deixavam dúvida: tem procedência nacional.

Meu telefone toca. Preciso ir para a plataforma 53. Depois de uma hora e treze minutos de atraso, finalmente.

O que eu estou fazendo aqui? Vim pegar.... “ Oi !!!!” Isso é outro assunto. Fica para outra crônica.

*(eu sabia, a esta hora não podiam ser todos cariocas ali, talvez só eu e mais meia dúzia de zumbis)

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O ritmo

Por Isabel Paixão


Ele tinha tantas notas engasgadas em seu próprio peito. Tantas canções.

E lá estava ele, mudo. Porém, dentro de si uma sinfonia estourava em mil acordes.

Ensurdecendo tudo ao redor.

Já faz algum tempo que ele esquecera do mundo ao redor. Não ouvia e não via mais nada, além de seu próprio peito.

Tudo para ela. Só ela importava.

Mal sabia ele que no coração da moça eram outras as melodias.

O peito dela palpitava, agora, em um ritmo diferente. Um ritmo que não era mais o dele.

Ela, então, confessou. E ele ouviu todas as composições, tudo o que ela havia feito para outro. Ela chorou. E ele riu, fazendo cara de quem entende.

Despediram-se em acordes tristes e desafinados.

Os sons no coração dele não cessaram.

Mas estavam ficando tão baixinhos perto do coração da moça. Compunha, agora, canções com promessas. Mudara o seu ritmo em prol da moça, e apagara aquelas melodias, das quais ela não gostava.

Mas de nada adiantou. Para que serve o amor só em pensamento?

O peito da moça ensurdecia o mundo. Um outro ritmo, um novo ritmo.

Que não era mais o dele.

Até que...

O mundo pode ouvir o estalo seco.

A música cessou no coração do rapaz.

E ele encerrou a melodia no coração da moça.

Bem ali no coração da moça, só restou o estacado.

Não há mais melodias, nem partituras.

E o amor?

Nada dele restou.

É que amor...

É uma questão de ritmo.

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Repintando o amor

Por Maricéa Martins Zwarg

A vida criativa é a única que compensa. Enquanto assim ela pensava, ele dizia:


- Você está bonita.

Sim, ele sempre o dizia e ela sabia estar bonita, ser bonita, e na verdade ligava muito pouco para isso. Sempre atraíra os homens, mesmo agora, aos 40, e parece que isso se acentuara com o tempo. Tipo mignon, nenhum modelo de beleza, mas a mistura de personalidade forte, o sorriso largo, fartos cabelos e corpo bem proporcionado lhe davam aquilo que chamam “sex appeal”. Ela preferia a palavra carisma, outra visão. A vida criativa pulsava dentro de si enormemente, e essa ele parecia nem notar ou se importar, e a paixão por aquele homem foi morrendo, esfriando, quando de um deus ele passou a ser somente... homem. Igual a tantos.

Culpava as mães, desejava escrever artigos que desmistificassem a figura da mãe, tão dedicada, pois sim. Dedicada a criar mulheres para a lida e vida e homens para serem o sexo frágil, superprotegidos, dependentes, sempre à procura do peito, da satisfação dos sentidos, da papinha, do colo. Será que ele nunca a enxergaria por dentro? Nunca olharia seus quadros com admiração, nunca vasculharia seus pensamentos com o prazer da troca de outros sentidos que não o corporal? Na maior parte do tempo, ela pouco se identificava com o feminino ou masculino. Queria apenas ser alma, etérea, flutuante, captando imagens e sensações e transportando-as às telas, as mãos rápidas e leves trocando os pincéis em imensas viagens coloridas.

E ele ali, parado, querendo mamar, o macho pleno. Ela então usa a tática óbvia feminina: dor de cabeça. A velha desculpa para o tédio. Como um ator com seu talento podia andar tão na superfície? Vai ver, deixava toda a essência para os personagens. Saindo do palco ficava só o macho pulsante – conjeturava ela. Suspira. Ele sai, some por uns tempos, ela o vai esquecendo. Busca a Internet, triste alternativa à solidão. Entre os e-mails, o de um homem que havia visto algumas de suas exposições. Visitara sua página e descobrira seu e-mail. Dizia nunca ter tido a coragem de dirigir-lhe pessoalmente a palavra, mas descrevia seus quadros como se estivesse dentro dela, captando sua essência e tudo o que ela desejava dizer com suas imagens, e ouvir de um homem.

Ela nem acredita, há tanto louco procurando excitação na Internet. Mas troca idéias e mensagens por dias, um, dois meses. Estava se apaixonando por um homem virtual, alguém que a completava e a compreendia por dentro. Resolve arriscar, marcam um encontro no Café das Artes. Ele descreve a roupa e combinam o horário. Ao chegar ela avista a camisa verde, ele sentado de costas para a porta. Ela se aproxima, e Renato, o ator, vira-se e lhe sorri. Nas mãos, rosas vermelhas e uma tela em branco.

(18.05.2004)

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O amor começa

Por Elis Galvão

; é. Confesso que sempre achei o meu nome estranho, sempre achei uma viagem isso do meu pai ter me dado o sobrenome dele e o primeiro nome do Charles Bronson para me conceituar e reafirmar que era um fã do camarada – cara das antigas o meu velho. Sim. Eu sei. O mau gosto também existe nas melhores famílias. Vou te ligar, ok? Vamos marcar um café? “Ok”, ela me disse sim! Fiquei esperando ela ligar no dia seguinte, mas ela não ligou no seguinte nem no outro nem no outro nem no outro... Ela sumiu. Será que ainda é ou era minha amiga? Boa pergunta.

Faz um tempo tudo, foi no início do outono, ela me ligou, veio a minha casa, levou-me para o pomposo e formal bar Informal no Leblon, pediu para que caprichassem na espuma do chope – “olhe, este é único no Rio que tem uma espuma de veludo, sabia?” -, e resolveu ler a Obscena Senhora D. Naqueles dias andava meio lerdo e não entendi muito o conto, nem o porquê dela estar lendo para mim. Seguimos bebendo, enquanto a bebida descia gelada e cortava meus pensamentos, a chuva despencava do céu rasgando as nuvens. Ela: “vamos!” Fomos. Entramos no carro, ela parou no sinal vermelho, me puxou e passou a língua nos meus lábios, mordiscou, beijou. Parecia que queria me ensinar algo. Mas o quê? Seguimos em silêncio, chegando nas proximidades da minha casa escolheu uma rua que não era a minha, parou o carro, passou a língua nos meus lábios, mordiscou, beijou. Eu? Eu parecia mais um menino sambudo, daqueles que adoram travessuras, dando os primeiros beijos no escuro. Ela me puxou com força para cima dela, esfregou o seu sexo no meu e quando enfiei as mãos para apertar seus seios, ela já tinha acabado.

Há lugares escondidos. O amor pode começar escondido num lugar público ou com um riso que desenha a boca ou no meio de um compasso da cadência de um samba ou nas curvas de um corpo que agrada os olhos ou diante de uma imagem escondida entre palavras ou no sonho de uma fantasia sonhada para vestir o sonho do outro ou com a ausência do peso dos dias ou numa hora compartilhada em um carro apertado ou da ansiedade para ouvir trimmmmmmmmmmm. Ou como o meu que começou onde acabou; é.

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