Sunday, October 10, 2004

ELEIÇÕES

Eleições 2004 – no tom do Rio de Janeiro

Por Maricéa Martins Zwarg

Gosto de votar na cidade onde moro. Assim, já votei em Itanhaém, Santos, São Paulo, e agora no Rio de Janeiro. Muito esquizofrênica, dividida entre a razão e a paixão como todo artista que ainda não se firmou, vim em busca de harmonia e equilíbrio, aquele ponto do meio de que falam os budistas. Utopicamente, achava ser o Rio o lugar ideal, por ser aqui onde a paixão – o mar e a natureza – e a razão – a cidade, convivem na mesma medida e intensidade. Ledo engano.

Cheguei em meio aos caos e num dos epicentros do caos fiquei, pois moro há um ano em Copacabana. Vi o povo carioca tão esquizofrênico quanto eu, uma parte movida à paixão, achando tudo ainda maravilhoso, ignorando ou fingindo ignorar o caos. Uma outra, teoricamente revoltada, cheia de razão, escrevendo cartas aos jornais, espalhando faixas de protesto, colando adesivos nos carros, mas sem ações concretas. E uma terceira, apática, nem de um lado nem de outro, como se o caos não a atingisse ou a deixasse letárgica, ou ainda com ações graciosas e sem nenhum sentido prático, como dar abraços e flores nas favelas. Porém, otimista que sou, pensei: ah, mas as eleições estão aí e tudo vai mudar, hô,hô,hô! Ledo engano.

Ao avaliar os candidatos, vi que nenhum deles preenchia o meu ideal de harmonia e de cura para a esquizofrenia do Rio e seus habitantes. O então prefeito e candidato, cheio de grandes feitos para o lado “de fora” do Rio, esquecendo-se das coisas miúdas e fundamentais ao bem-estar do cidadão. Um segundo, cheio de boas intenções para com o lado “de dentro”, a população carente, mas com um ranço religioso que pressupõe preconceito e discriminação aos de fora de seu rebanho. Um terceiro, arquiteto, com o apoio do fantástico Niemeyer, e talvez com uma visão maior dos dois lados, porém respaldado por um casal de governadores, pode-se dizer assim, um tanto quanto trapalhões, para dizer o mínimo com delicadeza. Um quarto, ostentando a estrela do apoio presidencial, com muito boas propostas de governo, mas sem os devidos – perdão – culhões para tal empreitada. E ainda uma quinta, cheia de paixão e vontade, mas sem apoio político para chegar a algum lugar. Minha esquizofrenia, de dois lados dividiu-se por cinco, e corri para meu antídoto predileto: a música de Tom Jobim, retrato de um Rio de outros tempos, mais humano e feliz.

Tom tinha o dom de dar o mesmo peso, medida e intensidade para os cinco elementos da canção: melodia, harmonia, ritmo, letra e emoção. Assim, o candidato que tivesse as cinco pontas da estrela que compõem uma canção – a espiritualidade melódica do Crivella, a harmonia pacífica do Conde, o ritmo forte e contínuo de César, os argumentos da letra de Bittar e a emoção intensa da Jandira, é quem faria a estrela do Rio voltar a brilhar. Então, pela primeira vez, por absoluta falta de opção e com muita tristeza, votei em branco. Mas se o voto fosse de papel, escreveria lá: Tom Jobim.

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Além dos contos de fadas

Por Ronize Aline

http://www.ronizealine.blogger.com.br/

Desde que me conheço por gente – e isso foi por volta dos 3 ou 4 anos quando, passando em frente ao espelho oval do quarto de minha mãe, percebi que aquela garotinha que me olhava desconfiada era eu mesma – os almoços de domingo da família são na casa de minha avó. Não, ela não é viúva, mas todos que têm uma avó que, além de cozinhar maravilhosamente bem, demonstra um talento nato para transformar uma simples casa num ninho de aconchego, sabe o que quero dizer quando falo que a casa é dela.

É difícil descrever a sensação ao passar por aquela porta e deixar o resto do mundo do lado de fora. Lá dentro a vida é calma, carinhosa. E, como se fosse lei promulgada e sacramentada, ninguém fala das coisas que se fala do lado de cá da porta: violência, desemprego, doença. A casa de minha avó é um oásis onde, uma vez por semana, vou repor minha sanidade. Lá, e somente lá, é possível sentar-me no colo dela e sentir meus 8 anos, o rosto lambuzado de sorvete, as duas a correr pelo parque sem saber qual se fazia mais criança. Abraçar meu avô e aspirar o cheiro almiscarado de sua loção pós-barba como quem aspira de volta uma tarde longínqua, um cavalinho de pau e ele a sustentar-me sobre aquele que me levaria a enfrentar meus próprios moinhos de vento infantis. Marceneiro, meu avô construiu meu cavalinho de pau e tudo mais que ainda hoje me parecem as coisas mais bonitas do mundo. Com a proximidade de meu casamento ando mais sensível a esses sentimentos familiares, depositando em meus avós o ideal de convivência que pretendo alcançar com meu futuro marido. Jamais se soube de briga entre eles, nem um mínimo desentendimento tão comum à rotina dos casais.

Ontem fui sozinha ao encontro semanal, já que meu noivo, médico, estava de plantão. Cheguei mais animada do que o usual pois havia realizado a última prova do vestido. Daqui a sete dias estará pronto e, depois de mais sete, poderei usá-lo oficialmente. Estava tão feliz que queria dividir essa alegria com todos. No entanto, assim que entrei na sala percebi que as coisas não estavam como costumam estar todos os domingos. Havia um muxoxo no ar, um certo desamparo, como se os querubins houvessem abandonado aquela casa. Havia também um cochichar constante que parecia cessar quando eu me aproximava de alguém. Não querem me trazer mais preocupações, pensei. Mas ficou inevitável quando percebi que meus avós, sempre tão carinhosos entre si, não estavam se falando.

Discretamente fui colhendo informações que se configuraram no seguinte quadro: houvera uma briga entre eles. Pior: uma briga pública. A discussão começara no metrô e se estendera por todo o Flamengo até chegarem em casa. Vovó acusando vovô de ter uma amante (senti uma leve tontura). Vovô negando (minha pressão parecia baixar). Vovó enfrentando-o ao dizer que ele não seria capaz de bater nela com um cabo de vassoura (meus olhos ficaram turvos). Vovó atemorizando vovô com a possibilidade de ele ser morto pelo namorado da tal amante (só me lembro do baque seco que minha cabeça fez ao bater no chão).

Não fui trabalhar hoje pois ainda me sinto muito fraca. A secretária eletrônica coleciona recados de um noivo aflito. Não sei se quero ou não falar com ele. Não é fácil descobrir que existe algo além do “foram felizes para sempre”.

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(Sem título)

Por Mária Novaes


Eis uma história da estirpe das “se me contassem, não acreditaria”. Mas, meninas e meninos, plagiando Gonçalves Dias, EU VI! Apesar de sua aparente irrealidade, conto o que parece mais um episódio de “Além da imaginação”.

Estava eu caminhando quando passei pela delegacia de meu bairro e percebi uma movimentação estranha. Curiosa que sou, me aproveitando da amizade com o delegado de plantão, adentrei a delegacia e procurei saber o que acontecia.

Uma senhora idosa logo na entrada gritava: “Assassino! Assassino!” O corpo tremendo em um bailado parkinsoniano. Do lado oposto, outra senhora contestava e ofendia a primeira chamando-a de rameira e prostituta. No canto da sala, encolhido e protegido por dois policiais, um senhor igualmente decrépito, aguardava. As mãos, braços e a camisa xadrez banhados em sangue.

Havia sido cometido um homicídio. O assassino, o senhor aparentemente indefeso e inofensivo. O morto, um pitboy de 25 anos.

Naquela tarde, o senhor, como de costume, visitava sua amante quando o pitboy apareceu exigindo explicações. A amante, além do velho, mantinha um caso com o rapaz. Uma paixão, segundo a amante, incontrolável. Violento, o rapaz partiu logo para briga. O velho sacou sua bengala e lhe rachou a cabeça. Fim da briga.

Essa história passaria sem uma explicação e seria prontamente arquivada, não fosse a interferência de uma testemunha que, mal soube do caso que já era um ti-ti-ti no bairro, se apresentou ao delegado. E contou que, horas antes, enquanto passeava pelo Flamengo em direção ao Metrô, havia presenciado a discussão da velhinha com seu marido, quando ela gritava em alto e bom som a infidelidade do velho e, pior, a infidelidade de sua amante. E ainda jogava na sua cara a juventude do rival.

Graças ao depoimento dessa valiosa e intrometida testemunha, pôde-se elucidar o caso dos velhinhos. Perguntado à testemunha o que fazia nas redondezas, disse que colhia material para uma crônica sobre a terceira idade.

Ironias da vida à parte, o que poderia se esperar de um escritor?

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Difícil de acreditar

Por Isabel Paixão


Difícil de acreditar, mas as eleições acabaram. Resta-nos alguns santinhos perdidos em gavetas estufadas. Ou ainda, alguns outros. Santinhos sobreviventes se deteriorando pouco a pouco em algum solo úmido do Rio de Janeiro.

Vale lembrar que, quem sobra nesta história não são os candidatos rejeitados pelo povo, muito menos os santinhos perdidos e abandonados pela cidade. NÃO. São os garis de todo o país. Como disse uma gari muito simpática, varrendo pacientemente ruas envoltas de papel : “É! Alguém aqui tem que fazer a coisa limpa!” Boa observação...

* * *

Esta foi a minha primeira eleição e, em se tratando de primeira vez, vale lembrar que a gente nunca esquece! Realmente. Não me esquecerei do marketing eleitoral encabeçado por meu pai em prol de um vereador muito amigo seu. “Já escolheu vereador? Não? Então vota no Gallo! O resto perto dele é pinto. Ele ainda tem uma vantagem: acorda cedo!”

Decerto também não esquecerei de momentos antológicos como, às vésperas
da eleição, uma candidata a vereadora dentro de seu jipe distribuindo panfletos, bótons, sorrisos, camisetas e até camisinhas. Tudo com a sua foto e o seu número estampado. Tais objetos devem ter alguma utilidade. Passei um bom tempo refletindo nisso. Alguma eventual utilidade...

Um amigo sugeriu que, cheirando com muito vigor aquela camiseta, se poderia ter uma “onda maneira”. Foi uma idéia. Mas, às vésperas de uma eleição, preferi não por em perigo as sobras de lucidez que ainda me restavam. Bom, ainda temos as camisinhas. Essas, sim, tem sua utilidade incontestável. Mas um conhecido retrucou, que andar com uma camisinha daquelas no bolso é deveras arriscado. Ele tem razão. Olhar para aquela foto sorridente é um tanto quanto brochante.

MAS, ainda temos os bótons! Sim! Esses devem ter alguma utilidade!

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Quem descobrir, por favor, me mande um e-mail.Dizem as más línguas, que foram gastos exatos 3 milhões na campanha da tal candidata. Uma campanha que não deu em nada, já que ela não foi eleita.

Três milhões em troca de sete mil por mês. Particularmente, isso é incabível no meu mundo. Para explicitar ao leitor a minha questão, não resisti e dividi os tais 3 milhões pelos míseros 7 mil reais. Equivalem a 428 salários de um vereador. São mais de 35 anos com 7 mil reais todo mês. Para bater essa meta, a candidata teria de ser reeleita 9 vezes! Se vocês estão seguindo meu raciocínio, terão de concordar que teria sido mais inteligente ficar com os três milhões no bolso, em vez de gastá-los com camisinhas, camisetas, sorrisos, e em benditos bótons!

Três milhões, em troca de nada... De nada, não! Ela ganhou uma crônica!

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Eleições

Por Felipe Carneiro

6:30 am – O despertador grita em seus sonhos. Um olho se abre e constata o óbvio: chove. E o pior de tudo, chove fino, num pinga-pinga interminável. O jovem, que recém tinha completado 18 anos, levanta e vai, tropeçando nas roupas e tênis usados na noite anterior, até o banheiro. Olha-se no espelho e vê olhos vermelhos e inchados. Depois de se perguntar se seus olhos estariam assim de raiva ou de sono, lava o rosto na água gelada.

Na mesa do café com a família extravasou o mau-humor até com o cachorro. É um absurdo obrigar as pessoas a trabalhar de graça, porque o sistema não funciona, porque todo mundo que ele conhece vai votar nulo ou na Jandira, sabendo que ela vai perder, então não adianta nada. Ainda por cima tinha que acordar cedo no sagrado domingo. E dá-lhe patada em resposta a qualquer tentativa de comunicação.

Acordado pelos maus modos do filho à mesa, o pai levanta e aparece na sala sem sequer um “bom dia”. Por que muito amigo dele foi torturado e morreu para que os filhos estivessem trabalhando naquele dia, que é um dever do cidadão, que o filho desse graças a Deus por não ter passado por uma ditadura.

O filho vai para um colégio perto de casa conferir títulos de eleitor da terceira idade em Copacabana, o pai volta a dormir. No fim do dia, os dois estão juntos em frente à TV, assistindo ao espetáculo da democracia por todo o país, e recebe a notícia de que César Maia (do partido de ACM) exercerá seu terceiro mandato de quatro anos na prefeitura. Sem contar o governo Conde, que se elegeu com o slogan “Conde é César, César é Conde!”.

Me desculpe, mas não sei o que pensar disso tudo.

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Irene não quer votar

Por Elis Galvão

Ela comprou velas na esquina da Miami Show -Erotic House com a Nossa Senhora de Copacabana, ali na altura da Praça Serzedelo Correia (a praça dos paraíbas). A mulher pagou por uma dúzia de velas, trocou meia palavra com os dois vendedores e seguiu observando as fachadas: Itaú, Pluft, Centro Comercial Copacabana, Bradesco, Oi, HSBC, Rustin’s Calçados, Edifício Jamil, Zona Sul, Banco Real, Aipo & Aipim, La Beaute, 605 Ed. Júlio Siqueira, Esfera, Setembro – Exchange Passagem, Pitágoras 613, Afghan, Blockbuster. Talvez pela primeira vez ela tenha conseguido enxergar as fachadas dessa quadra. Ficou um par de minutos na esquina da Blockbuster esperando o sinal abrir. Sinal verde, ela seguiu: Asty Moda Infantil, Edifício Tavares 637, Pontapé, O mundo oriental, Beira D’agua, Banco Morada, Maikai, Unibanco, McDonald’s, Ledo 647, Só fantasias, Banespa, Edifício Emboada 661, Bingo Copacabana, Germana, Studium Ginástica, Charutaria Lollô.

A mulher entrou na charutaria e desapareceu. Fiquei na frente observando meus fetiches da linha Zippo e maços de Borkun Riff, meu tabaco preferido com aroma de Bourbon. Resolvi comprar um Lucky Strike e pedir um café. Um senhor grisalho tropeça nas minhas costas e diz - mesmo sendo dia: “Buenas noches, senhores desgraciados!” Virei e o homem desapareceu entre as dezenas de cabos eleitorais que sujavam as calçadas com panfletos e santinhos de seus candidatos. Na esquina da Santa Clara, um rapazinho solitário destacava-se com outro tipo de propaganda, ao contrário dos outros que por 5, 10, 15 reais vendiam Conde, César Maia, Crivela e afins, ele fazia de seu corpo suporte para dois cartazes de um Sex Shop localizado na Siqueira Campos.

Já passava das 15h, dei a volta na charutaria, pois o café ficava nos fundos. Lá estava a mulher que segui desde a esquina na Miami Show. Pela primeira vez vi uma coisa pouco usual em um café carioca, duas senhoras sexagenárias no lugar das meninas de vinte e poucos anos à frente de um café. A senhora que segui se chamava Irene, veio da Paraíba aos 18 anos e estava ali ganhando o seu pão junto com sua amiga Madalena, uma mineira sisuda cuja simplicidade revelava sua elegância. Ao olhar a face de Irene, marcada pelo tempo e pelas dificuldades, me deu vontade de chorar e pensei: que Maria Mole estou! Irene nem precisou falar para me comover e parecia tão alheia a todo processo eleitoral: “Vivo no Vidigal, onde a polícia de mentira fecha as ruas direto, não quis transferir meu título para cá até hoje. Se a polícia não é de verdade lá, porque os políticos vão ser?” Terminei meu café, contribuí com uma gorjeta para a caixinha – decorada com notas minúsculas de 1 real - das senhoras e segui pensando: como seria o Rio sem nordestinos?

Precisava voltar para Laranjeiras, moro lá e devia ir a zona eleitoral mais próxima da minha casa. A campanha eleitoral carioca foi tão empolgante que no dia de votar estava enrolando o tempo em Copacabana. O vergonhoso impasse do Rio era: entregar o município para o maluco corrupto ou para a igreja universal?

Subi no 583, passando pelo Flamengo uma pichação chama minha atenção: “De que vale a liberdade se não temos o direito de errar”. Desci na Rua das Laranjeiras, entrei na Hebraica e justifiquei meu voto.

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O eleito

Por Francisco Malta


O Rio amanheceu como eu gosto. Céu azul e muito sol. Sabe, aquele dia propicio a sair para caminhar agradecendo o momento presente. Mas aí olho para a mesa e vejo os capítulos da novela. Hora de ir para o trabalho.

Da janela admiro a paisagem da cidade que vai sendo cortada pelo carro apressado. Música da Vanessa da Mata: “Ainda bem”, invadindo a cena e colorindo ainda mais a paisagem. Cena familiar. Repassando as cenas percebo que todo capitulo gira em torno de Reginaldo, o político corrupto da novela “Senhora do destino”, de Aguinaldo Silva. Em tempos de eleição, o autor faz uma crítica feroz aos políticos através do filho da nordestina Maria do Carmo.

No país do “ faz de conta, do jeitinho brasileiro” é muito comum ligarmos a TV e perceber de cara o discurso de quem não faz nada. Somente promessas. Isso me traz a memória uma fala de Gerald Thomas quando este afirma que o maior ator do Brasil é Antonio Carlos Magalhães – o coronel da Bahia. Gerald tem razão. Sempre que este aparece em entrevista, ele pára alguns segundos, buscando as palavras, respira, olha, lacrimeja por um olho e vai. Parece que tem uma câmara lhe orientando. Estes são os chamados enfermos deste país e deles precisamos nos livrar logo.

Bem... Há que contestarmos. Sentimento artístico o coronel Antônio Carlos não tem. Todo artista tem um propósito e isso já difere bastante deste senhor. Nossa arte é alegre, cheia de cores e vive a contagiar o próximo com sua luz.

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A procura de um novo herói

Por Liana Rodrigues Dantas

Enquanto isso, lá fora, sob as notas musicais de ‘Com que roupa’ e ‘João Ninguém’ um mar de gente assalariada está chacoalhando bandeiras e panfletos.

Seria uma festa?

”Desta vez ele sai!”

Laurita exclama em frente à tv dirigindo-se ao atual (e agora reeleito) prefeito César Maia. “Não é possível, quanto mais os outros candidatos falam mal dele, mais ele sobe nas pesquisas!”

E assim foi toda a temporada de eleições. Ela e suas “companheiras” do SEPE-RJ (SINDICATO ESTADUAL DOS PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO DO RJ) lutando e militando contra o prefeito. Muitas reuniões. Sim, muitas delas. Encontros em Itatiaia, e até em Brasília. Biscoitinhos amanteigados e muito guaraná.

“Eu votarei em quem minha mãe votar”

Valéria diz com um ar delgado e descompromissado, de qualquer importância que o ato de votar possa a vir ter no mundo. Abre um pacotinho de amendoins Nakayama, comenta sobre o preço dos novos aparelhos de celular, cantarola a nova música da Wanessa Camargo e demonstrando uma ansiedade curiosa: “...para vereador não sei, minha mãe ainda não disse!”

Cyro chega do expediente cansado. Para quem aprendeu a tocar violão sozinho, veio de Vitória da Conquista (BA) até aqui seguindo sua intuição, tocou com alguns músicos hoje consagrados e agora brochantemente trabalha no Ministério da Fazenda, declara tristemente seu voto: “Eu queria mesmo é votar em mim! Mas como não estou concorrendo, votarei no mais perturbado, ou mais cansado, pode ser também o mais sofrido, ou o com cara de maluco.”

E conclui enfático: “Alguém precisa me representar!”

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Não dê esmola, Dê Cidadania

Por Regina Hesketh

De forma alarmante, notícias nos chegam de crianças em trabalho escravo no Nordeste. Ficamos comovidos. Chocados. A notícia é triste, terrível. As autoridades sentem-se na obrigação de se agitarem e algo acaba acontecendo para tentar mudar a situação dessas "crianças escravas nordestinas".


De forma corriqueira vemos quase todos os dias no Rio de Janeiro em seus mais diversos pontos, em ruas e avenidas importantes e famosas, bastante movimentadas por pessoas também importantes e famosas, muitas crianças, bebês inclusive, que de forma "escrava" servem de arrimo para sua família ou famílias de terceiros.


Refiro-me a crianças de todas as idades que acompanham suas mães ou mães de fingimento, que muitas vezes são mulheres saudáveis e até bem jovens, fortes para o trabalho, mas que usam as crianças como instrumento para adquirirem dinheiro de forma "preguiçosa e exploratória". E não ganham pouco. E pouco vai para a criança.


São mulheres já bastante acostumadas a carregar um bebê no colo ou ter a seu lado crianças para que essas, de forma escrava, saiam pedindo por dinheiro ou vendendo balas enquanto esses adultos, mães ou supostas mães, se espreguiçam e se encostam pelas calçadas das ruas. Esses bebês e essas crianças são escravos de mulheres (ou homens) preguiçosos e bem diante de nossos olhos. Praticamente não fazemos nada. Pouco nos comovemos. A situação é muito comum e banal. As autoridades pouco também fazem. Mas se essa situação existe, nós a sustentamos. Somos mantenedores desse panorama pelos trocados e por tudo que fornecemos a esses preguiçosos e exploradores adultos de crianças.

Somos mantenedores da situação escrava de bebês que ficam na rua com sol, calor, frio, chuva, se alimentando mal, dormindo mal, fumando por tabela (já vi muitas mães com criança no colo e cigarro na boca), recebendo toda e qualquer poluição atmosférica e sonora.

Somos mantenedores da situação escrava de crianças que são obrigadas a pedir por dinheiro ou a vender balas até durante a noite. Crianças essas que são roubadas do direito de ir à escola, se alimentar bem, ter roupa e calçado decente, brincar de forma saudável.


As autoridades pouco se agitam. Tudo, repito, é muito comum e banal. E nós, os provedores, também tão acostumados estamos, que nem percebemos que a mesma mulher jovem que ontem estava com um bebê no colo, hoje traz outro bebê e ainda bem diferente do anterior. Ambos tão pequeninos, indefesos, mas já tão responsáveis e se sacrificando para sustentar supostas famílias.

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