Wednesday, November 24, 2004

Da semana

O Corvo
Inspirado no poema de Edgar Allan Poe

Por Felipe Mortimer Gomes Carneiro


Maldito seja aquele mês de dezembro, quando tudo o que eu pensava era na minha amada falecida. Nada era capaz de aplacar o desejo que eu tinha de, pelos menos, uma última vez, conversar com Leonora.

Entregava-me com todas as minhas forças aos livros e à maconha, na vã tentativa de tirar a cena de Leo caindo da janela da minha cabeça.

A véspera do Natal intensificava (se é que era possível) a minha angústia, já que parecia ser a única pessoa no universo sem um sorriso no rosto. Minha única reação era tentar preencher o vazio dentro de mim com a fumaça inebriante da droga.

Quando o relógio denunciava a meia-noite e todos começavam a abrir seus presentes... eu, olhos inchados de sono e do cigarro, quase dormia sobre um livro de um passado morto. Uma leve batida na minha porta me despertou. "Não pode ser o papai Noel", imaginei, e me levantei para receber a inesperada visita. Abri a porta já despejando minhas desculpas pela demora, mas só a noite ouviu minhas palavras. Confessando a mim mesmo a esperança que senti, gritei no breu "Leonora!"

Para minha surpresa era agora na janela que ouvia um ruído. Já preocupado, achando que alucinações tomavam conta de mim, abri a vidraça e fiquei olhando um corvo negro como os olhos da minha querida Leo entrar e pousar no alvo busto de Atena que há sobre meus humbrais.

Fitando aquele pássaro de ar tão nobre, desenferrugei um pouco este sorriso que há tanto não aparecia e perguntei, já inventando eu mesmo a resposta, o nome daquele bicho tão altivo. Para meu espanto, a ave disse claramente: "Nunca mais".

Após alguns instantes, sem saber ao certo o que pensar, resolvi fazer outra pergunta e assim organizar as idéias. Parecia-me óbvio que agora o silêncio tomaria o quarto.

"Já perdi muitos amigos nessa vida. Perderei você também?"

"Nunca mais" foi a resposta novamente.

Desta vez, o que o corvo dizia fazia perfeito sentido na minha cabeça, mas por outro lado, comecei a achar que tudo o que aquele bicho sabia dizer era "Nunca mais".

Aquele pássaro agourento me fitava e me fitava, como se penetrasse nos meus olhos e inflasse minha angústia. Tomado pelo desconforto que toda a situação causava, perguntei alto, sem saber se para mim ou mesmo para o corvo, será que minha alma nunca encontrará a paz e o conforto?" "Nunca mais".

"Nem sequer após essa vida, num paraíso distante, entre anjos e arcanjos, nunca mais encontrarei Leonora???" Disse o corvo: "Nunca mais".

Não, essa resposta eu não podia aceitar. A fúria me tomou como uma pomba-gira e pus-me a expulsar o maldito Nunca mais. "Vá embora, sua peste! Parta e não deixe neste quarto sequer uma pena que possa lembrar deste encontro infeliz. Vá e não volte jamais!"

Augusto como sempre, o corvo disse simplesmente "Nunca mais".

Ainda hoje, o corvo permanece no quarto, empoleirado no busto de mármore. Também minha alma se encontra no mesmo lugar, atrelada para sempre àquele maldito Nunca mais.

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O eu e o ego

Por Maricéa Martins Zwarg


Acabo de ouvir um bate-boca entre duas mulheres, no ap. em que moro de passagem, às duas da madrugada. Coisa desagradável. Não por acaso, nada o é, lia pouco antes “A Faca de Dois Gumes”, de Fernando Sabino, que trata das ambiguidades e questões confusas entre dois opostos, onde nunca se sabe quem é o culpado e quem tem razão, pois ambas se fazem nas duas partes. Sinto dor de cabeça, pois vivo em busca de harmonia . Ouvi meu nome em meio à confusão, tentativa talvez inconsciente de uma e outra me fazer levantar e advogar, como às vezes acontece. Resisti à desagradável tentação e transcendi o fato para escrever esta crônica. Acho muito confusa essa história de eu e ego. Lembro-me do filme “ O Senhor dos Anéis”, onde um menino idealista tem uma missão e enfrenta todos os obstáculos para realizá-la. Ele pode parecer o herói, mas a verdade é que tem a seu lado um amigo fiel que lhe alerta e livra o tempo todo de perigos que ele, apaixonado em sua missão, não vê. O amigo é sua razão e consciência e os dois meninos estão em nós.


Tudo muito lindo e legal e o desfecho seria rápido, não fosse uma criatura disforme que anda atrás deles ora em atitudes de bondade, amizade e compaixão, ora cheio de malignidade e desejos de roubar o anel, o “precioso”. É o ego, concordam? Esse vilão que está em nós para testar nossos ideais e possível realização . Já me acusaram de egoísta quando eu apenas estava tentando realizar metas com meus recursos visando também o bem comum, e já me disseram altruísta quando eu também estava secretamente buscando uma satisfação ou vantagem pessoal. Então hoje minha busca é a do tal caminho do meio dos budistas, agir ao ouvir a intuição, o anjo guardião, o eu saudável e realizador pra si e para o outro. O ego e suas armadilhas acaba sendo um aliado, pois tudo tem seu tempo de acontecer. O eu superior é o farol, mas o caminho, para mim, é o do meio. Somos humanos, mistura de divino e animal.

Acabo gostando de João Gilberto e sua busca pela exata harmonia entre voz e violão, alma e corpo. E concordando com Jabor ao dizer que Bush e Bin Laden são farinhas do mesmo saco, e que um quer o outro eleito , e este quer o outro escondido, pois um sem o outro não existe. Resta saber quem será o mediador para termos um pouco de paz neste mundo onde estamos todos ligados uns aos outros por fios invisíveis das teias tecidas por anjos e demônios a serviço do criador e da evolução. E até concordo com Paulo Coelho que diz que “quando você deseja muito uma coisa, todo o Universo contribui para que a consiga”. Se não deixar o ego vencer, ou ficar só sofrendo no idealismo. Fé e trabalho.

Bem, essa dupla de “líderes do planeta” já têm seus dias contados, creio que o mediador é o resto do planeta e espero consigamos amarrá-los e chutá-los logo para o planeta Sedna, além de Plutão, gelado e vermelho, como o calculismo e a ira que norteiam esses dois. Desta noite insone cheguei à conclusão que o silêncio muitas vezes é o melhor advogado. Numa última citação, “Se você quer transformar o mundo a seu redor há que primeiro iniciar uma reforma em si mesmo” – Dalai Lama. Se cada um que busca harmonia esforçar-se de fato, também mexerá nas teias que nos ligam e ajudará a melhorar este mundo. Maktub!