Mais crônicas - a oficina acabou, mas o blog continua
Fotos - Fragmentos de vida
Por Guilherme Sucena
... dentro de um caixa, achei outro dia, em armário profundo, muitas fotos jogadas, embebidas em perfume de madeira e dispostas sem que uma razão por ali tivesse passado; se amontoavam aleatórias e, em separado, contavam memórias de família; muitas de tempos em que ainda não me havia no mundo.
Espasmos de felicidade; fotos são embalsamamento do tempo, como bem diz Roland Barthes; são o tempo frisado, imagens em sulco de papel impregnadas, para no espaço físico e temporal podermos transportar. Assim, servem para afugentar tristeza quando perdido recluso, em algum canto do mundo; podem ser ainda bengala, bóia ou bote salva-vida para recorrer em momentos de desesperada saudade quando com o passar dos anos da memória ficar desprovido.
Tenho pouco mais de trinta, mas desconhecemos as regras que tira e dá a vida, por isso, às vezes me vejo acometido de uma vontade descabida de remexer nestes frames/flashes e recordar vitórias, encontros e despedidas; fatos vívidos da vida em diferentes lugares e companhias e noites e dias.
Nesta bagunça emotiva, o tempo tão cientificamente inquirido perde sentido; os ponteiros de nada valem; os fusos fundem confusos com as lembranças e o tempo se esvai; vai, e volta, e para, e volta a andar tendo como fôrma o nosso desejo.
Que fique bem claro: Não sou daqueles que recortam das fotos pessoas que querem esquecer, acho que tudo é você, sendo assim tudo que foi tem que permanecer para que possa melhor me entender.
Por isso, as preservo intactas; posso, eventualmente, descartá-las por completo - coisa que raramente faço; mas quando acontece, faço, muitas das vezes, baseado em conceitos questionáveis como estética ou pudor.
No mais, quero sabê-las por perto, quero guardar pros netos dos filhos que ainda não tive.
Preservá-las e um dia, quem sabe quando..... contemplá-las com calma à sombra de uma árvore frondosa, tendo no horizonte intangível um entardecer de fotolito, até fechar os olhos e meu tempo, que sei é finito, se der por completo.
1 Comments:
Já tinha gostado muito na oficina, lendo agora pude apreciar melhor. Beijocas
Ronize Aline
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