Monday, December 06, 2004

Possibilidades

No meio da rua

por Ronize Aline [meuemail@ronizealine.eti.br]

Ela atravessou a rua sem olhar para a esquerda. Olhava o fluxo de carros, ainda sentindo a cabeça latejar pela última imprudência. Procurava os carros, fugia dos carros. Olhava para a direita, atenta, sem nem mesmo dar-se conta do sinal verde brilhando sobre si. E assim venceu a distância entre as duas margens da rua. Margens que separavam possibilidades do ser e do não ser; do estar-se aqui ou acolá.

Se tivesse olhado para a esquerda o teria visto. Camisa jeans desabotoada até o meio do peito, grossa corrente dourada com um crucifixo na ponta, resquícios de gel no cabelo lembrando a noite passada em ambientes esfumaçados. Teria achado-o bonito. Olharia uma segunda vez, perderia o passo, quase atropelada. Iria recuperar-se do susto amparada nos braços daquele desconhecido, que passaria um lenço de seda sobre sua testa enquanto lançava um olhar furtivo para o seu decote pronunciado.

Se tivesse olhado para a esquerda não teria aceitado o convite de Osmar, o vizinho chato que não saía do seu pé. Não chegaria nem mesmo a ouvir os planos de Osmar, o emprego na loja do tio, o dinheirinho certo no fim mês, a casinha própria com quarto para os gêmeos, os almoços de domingo na casa da sogra. Não seria a mãe zelosa, a pacata dona-de-casa, porque mulher de Osmar não trabalha fora.

Se tivesse olhado para a esquerda, teria que dar duro para conseguir uns trocados e encher a mesa. Sem trabalho fixo, esse outro dizia que tinha uns negócios mas dinheiro que era bom, nada! Sem casa fixa, iria viver se mudando assim que fossem despejados por falta de pagamento do aluguel. Pelo menos, três vezes por semana,Po fugiria da polícia sem nem mesmo saber o por quê, mas jurando que seu homem não havia feito nada de errado. E depois de passar o dia inteiro chorando sozinha, em algum muquifo qualquer, ele chegaria cheirando a colônia barata, a abraçaria por trás como ela jamais fora abraçada por Osmar, falaria umas palavras que a deixariam ruborizada e acabariam na cama.

Se tivesse olhado para a esquerda, não teria um marido que era motivo de inveja das amigas, dois filhos educadíssimos que deixariam qualquer mãe orgulhosa. Se tivesse olhado para a esquerda, teria se apaixonado.

2 Comments:

Blogger Robert said...

BOM TEXTO. SEU BLOG É INTERASSANTE!
VENHA VISITAR-ME TAMBÉM!
FELIZ 2005!!!

http://sonhosdeverao.blogspot.com
e-mail: paulafrias2004@yahoo.com.br

January 2, 2005 11:07 AM  
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