Friday, October 15, 2004

AS ÚLTIMAS CRÔNICAS (DA OFICINA, EU ESPERO!)

3 x 4

Por Marcia Novaes

Dentre os vários caminhos a mim oferecidos, escolhi este para passar o tempo sobre a terra: descobrir quem sou. Uma vez ciente de meus contornos, quem sabe consiga compreender melhor o que os transcende.

Nasci em algum lugar em alguma hora específica do dia. Decerto, era manhã. Não possuo os vícios de quem chega ao planeta em horas sombrias. Mais certo ainda, não tive parto forçado embora a pressa não seja a companheira de meus tantos momentos.

Sou de natureza contemplativa e o pensamento é uma segunda pele que percorre os poros questionando-os, sempre, sobre suas funções e deveres. Só muito mais tarde percebi que também possuía direitos.

Direito a ser feliz e coerente com o de dentro, embora a coerência não seja o forte de minha constituição. Leio muito e escrevo bastante. Faço desta combinação binária a voz guia de minha apresentação.

Dos pecados capitais, assumo parte da gula, da preguiça e pedaço mínimo da inveja. Todos somos mortais. Em momentos drásticos tenho acessos de fúria onde me contorço em intolerâncias e aversões. Da luxúria não sou escrava mas tenho as costas lanhadas pelo “pecado” da carne.

Não reconheço rostos com facilidade e não percebo detalhes. Guardo questões que me maltratam e só aos poucos as ponho no papel. Me alimento de novidades e interesses, não sou fiel a uma paixão única. Quando não estou feliz, me escondo e muitas vezes me condeno, física e mentalmente. Até o dia em que tudo chega ao fim, de forma violenta e inesperada. Meus cinco minutos de ira.

Passional e intensa, sou pouco compreendida. Nem todas as lágrimas apagam os enganos. Talvez por isso distraia os outros dando vida no que não há, sons e vozes ao que não existe, fantasmas e inseguranças à realidade crua em que vivemos.

Neste caminho de ladeiras, esquinas e encruzilhadas, me comprometo de forma definitiva. Compactuo com o que me exige respostas. Peço tempo. Mais tempo. Nem que tenha que vender a alma para poder entender o porquê dessa busca, dessa falta que jamais preencheremos. Sou, essencialmente, existencialista.

Não sou de todo má. Um pouco confusa, tímida e cruel. Mas isso é apenas um detalhe.

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O mundo a descoberto

Por Márcia Novaes

Uma bolsa vazia carece de alma.

Talvez por isso as mulheres as tenham sempre cheias. Suas bolsas, quando abertas, desvendam mistérios e antecipam o juízo final. Transbordantes em acessórios, detalhes e miudezas, carregam o mundo. Cada objeto, por mínimo que seja, traz uma história, um motivo e um fim. Mesmo que o de coadjuvante frente a uma galeria de astros.

Batons, lápis, canetas, blocos, brincos, moedas, celulares, agendas, comprimidos, chaves, chicletes, agulha, linha, contas, bilhetes, cartões, cigarros, isqueiros, camisinhas, amuletos, livros, colares, botões, uma infinidade de seres e coisas possíveis e imagináveis.

Tudo se pode encontrar . Porque a alma da mulher é ampla. Como uma planície que se estende sobre as oscilações da vida. A tudo cobre como um lençol de cores variadas. A alma das mulheres é rica em detalhes, remendos, retalhos. Quem negará a incompreensão perene que a todos assombra quando ouve-se, do nada, um “você não me entende” ou quando, sem mais nem menos, uma lágrima desliza sobre sua pele sempre tão fina, sem as escarpas de pêlos e cortes da pele do homem?

Em uma bolsa de mulher se pode conhecer sua outra face. O que esconde por timidez ou medo. O que sugere por olhares e sorrisos. Em uma bolsa de mulher atravessamos o túnel de existência rumo á gênese, ao raiar do primeiro dia. Se nada encontramos é porque a procura não foi digna, o viajante há que se refazer e tentar novamente.

Quando uma mulher abre a bolsa ao seu lado, despudoradamente, mostra mais que a alma, mais que o corpo de curvas e desvarios, mais que seus lagos de águas límpidas e doces, que seus desertos de aridez comovente.

Quando uma mulher desvenda aos nossos olhos o que traz a tiracolo, é um pedido, não, é mais que um pedido, uma ordem. Ordem de entrega total. Impensável então, depois de chegar tão perto, virar as costas e perder, para sempre, a terra sagrada.

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A vizinha da frente

Por Maricéa Martins Zwarg

Sempre tive uma visão fantasiosa e lúdica do mundo ao meu redor, dessas que quando alguém está falando ou algum fato está desenrolando-se à minha frente, logo um fundo animado e personagens de desenho em quadrinhos criam-se em minha mente, geralmente com algum sentido de deboche que, segundo meu pai, vem de nosso lado alemão. Esse lado da família sempre foi alegre e irreverente, enquanto o lado português é mais melancólico e saudoso. Também segundo os debochados da família, o alemão é apenas um português que aprendeu matemática.

Mas vamos à vizinha. Precisando eu morar por uns tempos num pequeno conjugado em Copacabana, convivi por essa ocasião com várias vizinhas pra lá de idosas. Um dia, ao sair do elevador, eu a vi e ouvi, balbuciando um “boa noite” ao qual não ouvi resposta, e um arrepio percorreu-me a espinha. Entrei rapidinho em casa, fazendo sinal da cruz, crendo piamente ter estado diante de nada mais nada menos que Madame Min, aquela amiga da Maga Patalógica, que juntas vivem a perseguir o Tio Patinhas. Essa senhora, que Deus me perdoe, tinha totalmente a cara, o corpo e a voz das bruxas que atormentaram minha infância nos contos dos quais desejo Deus livre logo todas as criancinhas. A dita senhora era baixinha, com mais ou menos um metro e meio, corcunda, com vasta cabeleira cinza-azulada e enormes sobrancelhas escuras que juntam-se em “v” entre os olhos, dando-lhe um olhar malvado e tirânico. Além de tudo, dona de uma voz cavernosa , gutural. Fixava-se eventualmente à porta de seu apartamento observando tudo e todos, resmungando sozinha, e , ao ver-me, sempre soltava uns grunhidos ininteligíveis.

Supersticiosa que sempre fui, atribuí à velhinha minha má sorte, pois desde que vivia ali minha vida andava para trás ou estagnava, e eu dormia muito mal e tinha pesadelos. Um dia estourou um cano d’água em sua casa, que inundou o prédio do terceiro andar para baixo, obrigando as várias senhoras a saírem com seus rodos pelos corredores, enquanto ela tudo fiscalizava. Tinha ela um sobrinho que me parecia um “mucamo”, uma versão masculina das criadas de companhia de antigamente. Precavidamente, comprei uma arruda no vaso, incensos, e comecei a dormir melhor. Assim, fui convivendo com minhas impressões fantasiosas, sempre com medo de, ao estacionar meu carro , encontrar na vaga frente à minha uma vassoura, prova cabal, desculpem o trocadilho. Ao finalmente mudar-me do prédio contei minhas impressões ao porteiro que, rindo, disse ser ela devota de Nossa Senhora Aparecida, fervorosa católica que vive rezando novenas e ajudando aos pobres. Estimada por todos no prédio, ainda sustentava os estudos do sobrinho. Ah, bom...a gente se engana, né?

Ainda lembrei-me de uma dessas historiazinhas safadas da infância que alguém sempre contava com uma voz tenebrosa, onde havia duas inocentes criancinhas e de repente aparecia uma velha...(suspense), com um facão na mão! (voz engrossando e subindo o tom – suspense prolongado ) ...passando manteiga no pão... ( voz singela e cínica ) . Ora vá! De qualquer forma, mudei-me aliviada por não ter mais a impressão de que um dia, ao sair do elevador, ela da porta me convidaria a experimentar uma “poção”... com cobras, lagartos, sapos, asas de morcego...essas coisinhas básicas da culinária de Madame Min e Cia. Esconjuro! Valei-me , meu pé de arruda!

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Prosa em Copacabana

Por Maricéa Martins Zwarg

Numa tarde de domingo, em Copacabana, no calçadão

Um mendigo proseava a gestos largos com Drummond

Que parado, refletia um texto em consideração

Àquele que com eloqüência o chamava à conversação

A pauta era a beleza, o mar, o céu e a natureza do Rio

E então essa paisagem os levava ao piano do Tom

E o mendigo então pensava : “que grande sujeito

esse que ouve com tanta atenção”

Talvez se improvise aqui uns versos de ocasião

Mas quando o tom perdia o mendigo ensimesmava

Na tarde que caía com as sombras da prostituição,

das meninas, dos moleques, da sujeira das ruas

dos crimes, do abandono, lembrando a própria condição

E Drummond tudo entendia pois aquele era seu dia a dia

Esses mesmos esquecidos são agora sua companhia

E os dois um tanto cansados, assim sentados lado a lado

Impotentes, calados, varando a noite a imaginar

Uns versos pra resgatar a Princesinha do Mar...

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O vazio

Por Isabel Paixão

23:30 da noite e um imenso vazio perambula por ruas da Zona Sul. É o meu ônibus. Somente eu e algumas outras pessoas sonolentas voltando de uma Quarta-feira tediosa. O vazio vai tomando todo o ônibus aos poucos, à medida que os passageiros vão chegando a seus destinos.

Vou tentando fixar o olhar em algo interessante do lado de fora da minha janela. Numa tentativa de fugacidade, não muito bem sucedida, passo a observar o cobrador. Sua cabeça vacilante pendulando entre um espasmo e outro do enorme vazio de metal.

Distraída e vazia, tanto quanto aquele ambiente, não percebi, mas me desligava pouco a pouco daquela realidade perdida.

Quando de repente, senti algo a tocar meus cabelos. Pude sentir que alguém no banco de trás estava acariciando uma mecha mínima de meu enorme emaranhado castanho escuro. O prazer e o medo do desconhecido se condensavam e congelavam meu corpo, abandonando-me inerte e paralisada. Enquanto isso, minha mente borbulhava e preenchia o vazio daquele ambiente com todo tipo de pensamentos e suposições. Quem poderia ser? Por que e para que tocar em mim assim, justo em meu cabelo?

Tenho de confessar o quanto aprecio os carinhos em meus cabelos. Agrada-me, em muito quando alguém os envolve em seus dedos arrastando-os para baixo, como quem tenta desembaraçá-los, acabando por complicá-los ainda mais. De certo é o carinho que me ganha fácil.

Devia de ser, então, um homem deveras sensível, carinhoso e gentil. Por que não? Mas, e se fosse um tarado? Desses que tem distúrbios hormonais e psicológicos?

Não. Se fosse um tarado de verdade, teria me abordado de forma abrupta e cruel. Já teria sentado ao meu lado e me envolvido com suas mãos inescrupulosas! De certo que não é um tarado!

Não tive nem muito tempo para ficar aliviada quando me veio à mente:

Mas, e se for uma criança? Estaria eu tendo ilusões amorosas com um garotinho de 11 anos! Ou pior, com uma menininha de 4?! Porém, a essa hora da noite, garotinhos de 11 anos e menininhas de 4 não andam sozinhos em ônibus, nem em nenhum outro transporte público. Logo, conclui-se que estariam eles acompanhados por um adulto, o qual já os teriam censurado por mexer em cabelos de estranhos, impedindo-os de continuar. De certo é um rapaz!

Meus pensamentos recheavam e coloriam o ambiente, embalando o sono do cobrador e a vagarosidade do motorista.

Deveria acabar logo com aquele tormento que instigava a minha curiosidade:

Quem seria e como seria o tal rapaz?!

Respirei fundo como se pudesse tomar de volta todas as fantasias flutuantes que bailavam no ar. Engolindo-os todos, deixando o ambiente vazio e pálido novamente. Agora, cheia de coragem, virei o corpo com o intuito de voltar-me para trás. Mas, não consegui. Ao tentar fazê-lo, pude sentir que estava presa pela mecha. Agora, uma dor queimava pontualmente a região capilar e, como num reflexo, desvencilhar-me daquele ser era uma questão inadiável. Toda a admiração e encanto que eu criara por aquela pessoa iam se esvaindo de mim.

Inclinei o corpo para frente e com um tanto de força conseguia me desvencilhar pouco a pouco. Pude ouvir ainda, alguns fios se partindo e uma parte deles ficando com a tal pessoa.. Não mais unidos pela mecha, tudo acabara ali, antes mesmo de começar.

Voltei meu corpo para trás, desta vez com o intuito de virar-me para insultá-lo.Mas, tive uma grande surpresa.

O que? Como assim?

Não havia ninguém! Eu estava só naquele ônibus. Ainda sem compreender, olhei meio que instintivamente para as costas de minha cadeira, e então, pude ver...

Um simples e enferrujado parafuso, envolto por um emaranhado de fios castanhos escuros.

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Pipoca da embalagem rosa

Por Liana R. Dantas

As pipocas de embalagem rosa são uma verdadeira obsessão. É um retrato metaforizado das minhas compulsões, que não irei tece-las todas neste espaço já que não estamos em uma “Oficina de Epopéias”! Como a caneta Bic, temos pipoca de embalagem rosa espalhada por tudo que é canto.

Determinada e confiante, resolvi começar um tratamento para...digamos, a redução corpórea – já que ‘emagrecer’ carrega em si muita responsabilidade!- com um médico excelente e por hora, custoso, já que também é médico de ‘fenômenos’, enfim. Portanto, tento não pensar em pipocas!

A pipoca de embalagem rosa e a prática

Um outdoor da ‘fulana modelo’ me incomodara. Que menina linda e magra! Que ódio. ‘Há uma esperança’, pensei. ‘Estou fazendo por onde’, completando. E me confortei. E de repente, avistei um vendedor de pipoca da embalagem rosa passando. E perdendo os meus referenciais sintagmáticos, esquecendo certos compromissos, não resisti! ‘O da pipoca rosa!’ Gritava pela rua. ‘Alou, da pipoca!’ E nada. Comecei, então, a sentir raiva daquele vendedor (de pipocas rosas), que desprezava fiéis compradores como eu, oferecendo o produto a todos os taxistas que rejeitavam a dita cuja.

‘Deus só pode estar me castigando! Só porque estou restrita a alguns alimentos, Ele não quer que eu me aproxime do vendedor de pipocas’, pensei baixinho em momento de desespero.

‘Ô moço da pipoca’. ‘Ei! Não quer vender?’. ‘Meu filho, eu quero pipoca!’. E ele, continuava sua peregrinação pipoquística pela Primeiro de Março. Classe, educação, senso do contexto situacional já não exista mais, agora só restara o constrangimento de Pedro, meu amigo ao meu lado. ‘Olha lá, segue o cara!’ disse a Pedro. E ele foi correndo com suas pernas de girafa atrás da pipoca e do menino.

Alcançando o menino vendedor, Pedro parou e não disse nada a ele. E um ficou de frente para o outro, como um espelho. Descontrolada, não pude compreender a cena, achei um pouco estranho, mas estava tão absorta da realidade, que tive uma chegada à lá personagem de Agnaldo Silva, porém com muito mais graciosidade: ‘Querido, estou te chamando há séculos desde lá do Paço, você não ouviu?. Hein?’ Sorri, contente por o ter alcançado. Freneticamente procurando a dinheiro, mais um ‘Hein ?’. E não ouvi a voz de ninguém. Nem de Pedro, nem do menino.

Ele, o menino, sorria sem graça, só fazia um gesto com o indicador indicando que a pipoca custava um real. O menino, vendedor de pipoca da embalagem rosa, de marca Come-come, era surdo!

Meus sentidos ficaram dormentes. Acredito que o de Pedro também. Esta altura eu já estava rouca. Comi a pipoca em silêncio, rindo de desespero, quase engasgando. E pensei em nunca mais furar a dieta!

Deus é sagaz. E ‘Fulana do outdoor’, aqui vou eu!

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O degrau

Por Julio César Corrêa



Levei algum tempo para entender a razão daquele degrau na porta do Nova
Capela, o quartel general dos boêmios, ali na Avenida Men de Sá. Cá pra nós,
aquele pedaço de mármore preto já é bem antipático. Mas sempre achei também
que colocar um degrau na saída de um bar boêmio, palco de porres
surrealistas, fosse uma maldade crudelíssima.
O maldito degrau nunca fez mal nem a mim, nem a minha turma de antigos
freqüentadores. Mas sinto minha preocupação aumentar agora, quando o chamado
renascimento da Lapa, tem atraído uma nova geração de boêmios. Gente bonita,
famosa e moderna, vinda lá da zona sul. São estressados, falam alto e riem
um riso de vitrine. Como aqueles antigos caçadores ingleses, no continente
africano, eles vêm à Lapa atrás de programas exóticos. E o degrau malvado
não quer saber, derruba sem piedade.
O problema é sério e as autoridades precisam fazer alguma coisa, antes que
o pior aconteça. Já tem até um mendigo negro, conhecido por Gudnaite, que,
nas madrugadas, fica à espreita, esperando faturar algum trocado, fazendo
curativos naqueles que se ferem nas quedas espetaculares.
E o danado do degrau tem derrubado muita gente.
O triatleta e modelo Kiko Pallentine, por exemplo, um garotão de quase dois
metros de altura, ficou de quatro na calçada. A promoter e modelo Paulinha
Martine Blanco e o modelo e estilista Silvinho Dreher também desabaram. O
multimídia-roteirista-diretor de teatro-escritor esotérico-professor de ioga
e, nas horas vagas, funcionário público, Duda Bacardi, quebrou o nariz e o
celular numa queda histórica. Enquanto a atriz-vencedora de reality
show-capa da Playboy e top model Veronique Cointreau fraturou suas nádegas
avaliadas em US$ 100 mil.
Não daria para enumerar aqui todas as vítimas do degrau diabólico. Mas em
nenhuma queda houve tanta badalação, como na da cineasta-modelo e lésbica
nas luas cheias, Ângela Smirnoff. Membro de uma família nobre da Rússia,
Ângela chegou cercada de repórteres, socialites e deslumbrados de plantão.
Após encarar uma feijoada nocauteadora, regada a muita caipirinha, a boêmia
de sangue azul não foi alertada sobre o terrível degrau e acabou beijando a
calçada da Men de Sá, onde pisam e escarram plebeus de todos os tipos.
E ainda passou pelo vexame de ser socorrida pelo Gudnaite.
- Vai um mercúrio cromozinho aí, ô madame?
A queda da nobre escritora foi a gota d’água e marquei uma reunião de cúpula
com a minha turma, para iniciarmos um abaixo-assinado, uma passeata, um
abraço em torno do quarteirão. Falou-se até em irmos a Brasília. Tudo para
dar cabo daquele degrau maldito.
Mas após muito papo e muitos goles (não necessariamente na mesma proporção),
encontramos a razão de ser daquele degrauzinho safado. Entendemos que ele
precisa existir para que nós, testemunhas de um Rio mais tranqüilo e feliz e
que procuramos no Nova um restinho de lembranças daqueles dias cada vez mais
distantes, ao sairmos, sejamos obrigados a parar, respirar e encontrar
forças para encarar a atual realidade carioca.
Concluímos também, que o degrauzinho só derruba os falsos cariocas, os que
nada têm a ver com o espírito do Rio que conhecemos. Só caem os apressados,
os deslumbrados, os de nariz em pé e os sem-jogo-de-cintura. Nós não
corremos este risco.
O quê? Parece conversa de bêbado?
Ôgh! (soluço) E é.

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A primeria vez

por Elis Galvão

Celsinho, 26 anos, trabalhador, puro, virgem, quase um santo, mas acabou arranjando uma namorada, Joana dos Passos. Esta falava pelos cotovelos e como toda menina do seu interior, Lagoa Seca, queria casar, ter uns meninos e até ajudar o marido no roçado. Quando Joana dos Passos começou a namorar Celsinho, sua mãe, logo, preocupou-se em conversar com a filha sobre as coisas íntimas do casamento. Naquele tempo, final dos anos 70 no agreste do Rio Grande do Norte, as mocinhas deviam casar virgens, saber cozinhar e ajeitar uma casa.

Muito bem, o namoro avançou pelos dias. Celsinho não fazia nada além de dá um beijinho na bochecha de Joana dos Passos e pegar sua mão. Ela queria mais, queria ser arrochada, beijar de língua, tirar um sarrinho. Ele era um respeitador. Namoravam no alpendre da casa dela, sempre próximos da luz do candeeiro, e Joana dos Passos ficava louca pra ir pro escurinho. Sempre que ela puxava o rapaz para o canto: “Joana mulé, tamos na casa dos teus pais, não podemos ficar nos escuros.”

Joana dos Passos seguia conversando com a mãe sobre as coisas da vida de casado. Na casa de Celsinho, ninguém falava sobre das intimidades a dois, mas o pai já andava apressando o rapaz: “Celsinho meu filho, você já está enrolando há dois anos nesse namoro tá na hora de pedir a moça né.” O rapaz pediu, e, claro, ela aceitou.

No dia do casamento, ela usava um vestidinho branco de chita com babados e sua boca estava mais vermelha do que o coloral que ela passou. Ele, calça de tergal azul e camisa branca de mangas. Houve uma festança. Foi aquele almoço com todos os familiares e conhecidos, muita farrofa, arroz tapa parede – que tem uma consistência igual a do arroz ao leite - galinha, peru e carne de boi assada. Finalzinho de tarde, os dois foram para a casa que o pai de Celsinho construiu para eles. A felicidade de Joana dos Passos era tão grande. Quando chegaram na casa ela começou a tirar a roupa.

- Que isso mulé, que que tu tá fazendo?

- Como assim Celsinho?

- Tu tá maluca é?

- Eu?

- É mulé, tu.

Joana tirou o sutiã e puxou a calcinha.

- Mulé, eu vou contar pro teu pai, vou contar tudinho disso dessas astúcias.

Ela, paciente, foi se aproximando dele, foi ajeitando as coisas.

- Joana, tu... tu tá fazendo o que?

- Tou fazendo o que a gente faz quando casa.

- E quando casa tem que tirar a roupa é? Vixe Maria!

- Homi, deixe de falar e vamos ali pra cama, vem.

- Sei não visse.

- Vem.

- Joana tu tá em cima de mim?

- Tou!

- ai ai ai ai ai Joana.

- ú ú ú ú Celsinho.

- Joana, Joana? – Celsinho no meio do gozo.

- Que foi homi?

- Vamos guardar um pouquinho pra amanhã pra não se acabar.

http://senhoritaelis.zip.net/

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O assalto

Por Francisco Malta

O relógio da praça General Osório, marcava vinte horas e trinta e cinco minutos quando Selminha Self-Service atravessou a calçada em direção ao supermercado Zona Sul.

A traveca desfilou até a seção de Horti -Frutti e num fluxo de segundos, a bicha começou a gritar:

− Assalto! Assalto!

Foi um tumulto só. As pessoas se jogavam pelo chão, corriam, escondiam e se acotovelavam pelo supermercado. A traveca não parava de gritar, os seguranças chegaram apressados ao lado do gerente e não conseguiam avistar nenhum assaltante. Foi então que o gerente indagou:

− O que aconteceu menina? Por que você está gritando: Assalto...Assalto.

E a traveca continuava histérica .

− O preço da mandioca...Olha o preço da mandioca. O senhor ainda vai querer me convencer que isto não é um assalto?

Bateram boca um tempão. As distintas senhoras começaram a vaiá-la. O gerente teve então a idéia de convidá-la para um particular. A traveca subiu para o escritório com o gerente e os demais seguranças.As senhoras continuavam enfurecidas. De repente houve um silêncio profundo. Quinze minutos depois a traveca desceu a escada com algumas mandiocas na mão. Discutiu com os fregueses.Saiu.Atravessou a praça e seguiu desfilando pela Visconde de Pirajá com as mandiocas na mão.

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Duelo

Por Ronize Aline

Vitorino observava o outro a distância; e era por ele observado. Estavam assim há duas horas, pelo menos. Não poderiam continuar por muito mais tempo e seria ele, Vitorino, a tomar a iniciativa. Respirou fundo, estalou os dedos, cuspiu uma saliva ácida no chão de terra batida. Deu uma última olhada em suas botas e partiu. Começou com um primeiro passo - é assim que começam as grandes caminhadas. Não era uma longa distância que os separava, mas a tensão deixava o ar pesado e o percurso difícil de ser cumprido. Outros passos se seguiram; Vitorino fazendo questão de manter o contato visual. Temia que, se piscasse, o controle - que julgava seu - lhe escaparia. Ficaram tão próximos que podiam sentir a respiração ofegante um do outro. Uma última tomada de fôlego e Vitorino estava pronto para a derradeira ação. Sem dar tempo para que o outro reagisse, saltou e postou-se soberano sobre o dorso nu daquele alasão arisco. O duelo tinha seu vencedor.

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Wednesday, October 13, 2004

AMOR, LITERATURA, LITERATURA, AMOR

Grão Mogol, 800

Por Márcia Novaes

Sempre que me perguntam por que escrevo, sinto a tentação de romancear uma explicação que justifique a existência de todo mortal. Mas lembro de uma proposta que me fiz há anos: ser justa com o de dentro e com o de fora. Não falsificar passados ou idealizar futuros. Fecho então os olhos e me vejo em uma sala. Um sofá amarelo. Lustres de pingentes que parecem de cristal mas são apenas vidro, janelas com cortinas e grades formando desenhos. Latidos e movimento de carros do lado de fora. Cheiro de bolo e pipoca. E um som muito próximo: tec-tec-tec. Som que vem detrás de uma estreita porta. Da sala há a passagem para um quarto. Uma porta tão discreta que mais parece uma fuga, um descuido, um simples detalhe. Atrás dessa porta, o som repetitivo, um ritmo diferente. Na vida teria sempre a tendência a me apaixonar pelo som improvisado, cuja cadência criativa contrariaria opções óbvias e previsíveis. Seria uma apaixonada por jazz.

Quando aquela estreita porta se abria, outra paixão de vida inteira se mostrava. Diante de meus olhos ainda ingênuos e infantis, uma máquina de escrever, negra como a escuridão. Ali estava o som das vozes dos homens. Seus sentimentos, mágoas, rancores, pausas. A verdadeira música da vida. Ao lado desse monstro de ferro e sonhos, meu avô. A pele branca contrastando com a máquina negra. Os olhos azuis e o rosto redondo.

Sempre que me perguntam porquê escrevo, viro o rosto em direção a uma Belo Horizonte que não existe mais. A uma casa na Rua Grão Mogol, que não existe mais. A uma sala, uma Remington e um avô que não existem mais. Ouço ao fundo o som de um trompete, uma bateria improvisando solos. Então abro os olhos e digo que escrevo para que haja sentido. O resto é pura invenção.

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O brilho das coisas


Por Francisco malta



José Martins, vulgo Zé Tatu, trabalhava na fazenda olhos d’água, Distrito de Esmeralda do município de Santana dos Ferros em Minas Gerais. Capinava distraído quando a enxada bateu em uma pedra verde e brilhante. Era tão bela que despertou sua curiosidade. São coisas do destino: casualmente ele acabava de descobrir uma das maiores esmeraldas do mundo.

Seu Jojô, homem culto, integro, de peso, meu avô teve a ventura de gozar de sua amizade. Para se aquilatar sua postura moral, vem-me à lembrança um fato a que assistia, quando, em uma reunião na sua fazenda, festejávamos seu aniversário.

Descontraidamente, ao pé da escada, aproximou-se Zé Tatu, conduzindo uma vasilha com azeite de mamona e minhocas, ungüento para curar boi. Uma das filhas de seu Jojô, brincando cortejou o empregado.

“Caso contigo se tomar esse ungüento”

Ao que Zé tatu retrucou.

“Você sustenta deveras ?”

Ela concordou.

E, para espanto das pessoas presentes, tomou grande parte do remédio. A moça desapontada e surpreendida alegou que era brincadeira e não casaria com ele.

Seu Jojô, assistindo à cena, com toda seriedade disse a Zé Tatu:

“A moça é sua”.

Quanto a esmeralda, Zé Tatu não deu muita importância. Após o casamento com a filha do fazendeiro, mudou-se para arredores da fazenda. Hoje, a esmeralda fica escorando a porta da sala.

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A busca

Por Guilherme Tolomei

Atravessou a rua e ela continuava a segui-lo. Pensou em parar, mas, ao contrário, aumentou a velocidade. Talvez fosse ele que a seguisse, já não sabia. Há quanto tempo estava em seu encalço? Horas, dias, anos, segundos? Ela não lhe era estranha. Os olhos verdes desbotados o faziam lembrar de um futuro remoto. Poderia ser uma amiga. Falariam sobre as possibilidades que jamais tiveram de se conhecer. Perguntaria seu nome e ela responderia com uma sílaba incongruente. Recordariam instantes indeléveis das caminhadas nunca realizadas. Lembrariam do momento que nunca houve. Mas apenas continuou andando.

Às vezes, sentia a perna dela lancinante e, respeitosamente, diminuía o passo. Outras vezes, andava por ruas iguais para ter certeza que estava perdido. Ambos estavam perdidos. Andariam sem destino. Viajantes solitários de um labirinto permanente. Entretanto, as casas ao redor envelheciam. As tintas das paredes adquiriram um tom mais claro. Os contornos desbotados proclamavam a independência da forma. Tudo parecia sumir. Um deserto. Uma folha em branco.

Não obstante, ele entrou no café “Les Lettres”. A mulher já estava sentada na última mesa. Olhou-o, como se olhasse todos e, ao mesmo tempo, ninguém. “Você é o escritor?”, “Sim”. ”Esse talvez seja o único propósito da perseguição. Você sabe o que eu tenho para te dizer?”, “Você veio me dizer que eu não existo”, completou rindo. Aproximou-se dela e sussurrou em seu ouvido: “E provavelmente, você também não” Depois começou a rir cada vez mais alto, até que o riso e a mulher se misturassem, tornando-se uma coisa só.

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Amor?

Por Guilherme Tolomei

O encontro deu-se no metrô.

- Eu quero terminar tudo

- Mas como assim terminar tudo?

- Você entendeu.

- Calma aí, eu...

- Não podemos continuar assim.

- Assim como?

- Será que é tão difícil aceitar o fim de um relacionamento? Será que você não percebeu o tédio, a incomunicabilidade, a ausência?

Há uma longa pausa.

- Não pode ser.

Acredite, dessa forma será melhor.

Você está brincando

Sem vexame, por favor. Vamos tornar as coisas mais fáceis.

Não sei do que você está falando, não sei quem você é, nem ao menos sei como se chama.

Já esqueceu até como me chamo! As coisas estavam piores do que eu imaginava.

Volto a repetir, senhor, não te conheço. Nunca te vi na minha vida.

Não pensei que você tivesse tanta mágoa de mim.

O senhor deve ter algum problema.

Além disso, me ofende.

Calma, não é a minha intenção.

Nunca é a sua intenção. Você quer que eu ache que não tenho passado e, na verdade, sequer existo.

Não! Não.

A partir daí, vou criar inúmeros traumas. Seria o seu grande triunfo.

Mas pode ser que eu seja a culpada. Posso ter descoberto meu desatino. Minha mãe vai perguntar como foi o encontro com o meu namorado. Mas que namorado? Eu tenho namorado? Vou descobrir que a minha mãe já morreu há dez anos. Ou será que não morreu?

Calma, também não precisa chorar. Eu estou aqui. Lembra-se daquele dia em que...

Os dois começaram a conversar. Ela falou do robalo com alcaparras que sabia fazer e, ele contou como se conheceram em uma exposição de pintura.

Divertiram-se. Foi então que ele olhou fixamente dentro dos olhos dela, como se ali existissem todas as verdades ainda não ditas, beijando-a.

E nada mais aconteceu. Ele se virou de costas e foi embora. Desde o início, já estava decido a terminar tudo.

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Esse indecifrável prazer da leitura

Por Ronize Aline

Ler. Nem todos lêem. Não falo do passar a vista descompromissadamente pela superfície plana do papel. Refiro-me àquela sensação de êxtase alcançada apenas por quem se entrega sem resistência ao que a leitura oferece. Quem abre um livro armado de precauções, cuidados, preconceitos e um auto-controle indisfarçável, não vive a verdadeira experiência de ler.

Sou barriga-verde. Nasci em Rio do Sul, interior de Santa Catarina. Como em toda cidade pequena, as coisas demoravam a dar as caras por lá. Não seria diferente com a literatura. Uma das (raras) saídas era o Círculo do Livro, do qual meu pai era sócio e que tinha a revista mais aguardada lá de casa.

Desde pequena me acostumei a ver meu pai lendo alguma coisa. Havia nele um ar de satisfação com o que estava fazendo. Assim, para mim a leitura sempre esteve associada ao prazer. Passei a admirar esses momentos e a querer fazer parte deles. Como costuma dizer Ana Maria Machado, o gosto pela leitura nasce a partir do exemplo.

Um dia meu pai revelou-me uma surpresa guardada há anos: uma enorme caixa de papelão com centenas de revistas em quadrinhos meticulosamente amarradas com barbante. Ele fizera aquela coleção para quando eu soubesse ler e, ante meus olhinhos surpresos, começou a desamarrar as revistas espalhando-as pelo chão. Sem saber por onde começar, eu folheava uma a uma extasiada. Aquilo tudo era muito mais do que poderia imaginar. Um mundo inteiro de estórias para ler.

Mas, houve um tempo em que esse mundo tornou-se pequeno demais. Então vieram os livros. Não lembro ao certo quantos tive do Círculo, mas ainda guardo a lembrança do primeiro que, confesso, escolhi pelo título. Marcelo Marmelo Martelo tinha um som gostoso, como se as palavras ficassem brincando de roda dentro da boca da gente. E, por ele, me apaixonei duas vezes (sem que uma tenha se sobreposto à outra). A primeira foi ainda criança. Que garoto esperto esse Marcelo! Como eu não havia pensado nisso, dar às coisas o nome do que elas fazem ou para que servem? A segunda vez foi quando comecei a me interessar pelos meandros da escrita. Que garota esperta essa Ruth! Como eu não havia pensado nisso, escrever sobre um menino que questiona o nome das coisas?

Me formei em jornalismo e o texto exigido pela profissão pareceu sufocar o gosto por contar estórias. Por um longo tempo abandonei a idéia de escrever ficção. Mas essa idéia não me abandonou e, mal me distraí, voltou a fazer-se presente. São contos, romances, crônicas que parecem ter descoberto uma brecha em meus afazeres para se lançarem afoitas ao papel. Então me acomodo, deixo as palavras fluírem e fico à mercê de seus caprichos que, assim como a leitura, tanto prazer me dão.

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AA-mor

Por Liana Rodrigues Dantas

Tendo a tv

O dolby-sorround a transforma

Num show sem igual

Pois, afinal,

O amor é estranho e sem forma

O amor é anormal.

(Ruído rosa, Jonh, Pato Fu)

Acordar às duas horas da matina pode ser caso de pânico, telefonema secreto, fome, dor de barriga e também amor. Escutar a música que mais odeia, lavar a louça com tesão, escovar os dentes sem preguiça, comprar um novo cinto e fazer um novo corte de cabelo podem ser plenas transformações. E também amor.

Descer toda a Avenida 28 de setembro sob o sol latejante lá pelas 16h e dobrar a esquina do Morro dos Macacos pra visitar uma cartomante, depilar o peito e fazer limpeza de pele com leite Rosa pode ser a nova tendência (exótica) metrossexual e também pode ser amor!

Cinta-liga, Viagra, depilação a laser, lipoescultura, cera quente, moldar sobrancelha com pinça, pode ser (in locus) doloroso, mas também, incrivelmente, poder ser amor!

Lelequinho, gatito, fofusca, neném, kekinho é, segundo alguns manuais de etiqueta rigorosamente ridículo, porém, indiscutivelmente, também, pode ser amor!

O amor pode ser também todas as coisas que não se conhece, que não se experimentou; as esquinas e ruelas abandonadas, vendedores de paçocas, de vassouras, de pamonha. Pode ser o ar pálido da vendedora de churros, a postura desconfortante da cobradora de ônibus, pode ser o delicioso sofá do Odeon.

O amor exprimi democraticamente o conceito plural à respeito deste tal signo ‘amor’ de qual todos comentam. Pode ser tudo, uma regozijante e esplêndida experiência transformadora e também pode ser nada demais, como esta crônica.

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O outro lado

Por Maricéa Martins Zwarg

Há mais de um ano não o vê. Na intimidade, há quase dois, lembra-se bem. A última vez, almoçaram no restaurante japonês, ele derramou a sopinha “misoshiro”, ela pegou outra com carinho. Pouco antes, no caixa eletrônico do banco, o guarda recuou o corpo para deixar passar seu olhar apaixonado na direção dele, que sempre tão distraído, nem notou.

Se ainda é amor o que a leva a recordar, ou se é só a romântica lembrança do amor, tanto faz. O outro lado, o concreto, nunca conheceu, só pôde imaginar. Sua rotina, sua casa, cachorros, filhos e companheira, sua vida social, os compromissos e responsabilidades, suas construções, projetos e desenhos, o mundo do qual ele às vezes escapa através do abstrato, da música, e de alguém diáfano, como ela lhe pareceu. Só viu o lado a ela oferecido: a ilusão, a noite, as canções, o sonho, o amor fugidio em tempo curto, e tanta, tanta ternura. Lilith, a lua negra.

Alguém bem lhe disse que deve-se desconfiar da ternura. Mas ela é solar e precisava amanhecer. E agora, que há tanto não o vê e à tão grande distância, há como um fio invisível volta e meia ligando seu pensamento ao dele. Ela vive o dia, o concreto, a claridade, namora, trabalha, passeia, mas sobretudo à noite, ele, o outro lado, volta pelas mãos de Lilith, e vem a ternura, a voz, a risada, as mãos, os abraços e beijos, e as canções... E ela, como mãe zelosa passando remédio no machucado do filho, diz a si mesma: vai sarar logo, calma, paciência, paz e ciência, tudo passa...

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Criação, doação e recepção

Por Maricéa Martins Zwarg

Escrever, compor, pintar, fotografar... Há quem diga que não exista momento mais precioso e prazeroso que o da criação, o instante em que o artista consegue sintetizar e organizar aquela profusão de sentimentos e idéias em algo traduzível para o outro, algo real. Concordo em parte. O Criador, o Uno, mandou Moisés dizer: amar a Deus sobre todas as coisas. Não contente em criar tudo o que há, ele pede retorno, ou melhor, ordena. O artista, microcosmo de Deus, também o deseja. A recepção é tão importante e até complementar à criação. É aquele momento maravilhoso em que sabemos que atingimos o outro, emocionamos, saculejamos, incomodamos, fizemos refletir.

O que não dá pra agüentar é a indiferença. Resposta nenhuma. Só criar é meio prazer, e solitário. Prefiro a “promiscuidade” criativa, esse dom que o artista tem de dar prazer ao mesmo tempo a muitas pessoas e receber de volta, sejam elogios, críticas, aplausos, caretas, cartas, “dindim”. O melhor momento, para mim, é essa Santíssima Trindade: criar, doar e receber. Acho que Deus não se incomoda de que maneira o amem, e que nomes lhe dão; tristeza mesmo, para Ele, dever ser um ateu.

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Amor de chegada e partida

Guilherme Sucena

Sábado. Seis e quinze da manhã. Hora de qualquer carioca são estar dormindo, mas eu estou chegando na rodoviária Novo Rio. “Desculpe”; digo a uma senhora que está parada a minha frente indecisa. Vim pegar... “Ai !”, uma bolsa daquelas imensas que cabem um corpo, sem que para isso tenha que dividi-lo em partes, bate na minha cabeça. Pela pancada não é um corpo que está ali dentro; ainda bem.

Mais dois passos e um senhor se aproxima e pergunta onde pode comprar caneta. O que será que ele precisa escrever no meio daquele mar de gente? É muita gente. Acho que todo o Rio acordado esta nesta rodoviária.

Meu estomago me lembra que não tomei café, com toda a correria que foi para não chegar atrasado. É muito deselegante deixar alguém esperando, ainda mais quando este alguém viajou a noite toda em um banco de ônibus – por mais Leito Ultra Especial Plus Max que este seja.

“Por favor, um mate e uma porção de pão de queijo?!” Sento em uma mesa e me lembro que um amigo outro dia falou: “Quer escrever? Observe mais a vida.” Não que eu não faça isso, faço e muito, mas nunca com o olhar de um candidato a escritor de crônicas e contos. Achei o momento perfeito para colocar isso em prática.

Não demorei muito para me tocar olhando todo aqueles abraços, beijos e sorrisos a meu redor, o real motivo porque alguém suporta tantas horas dentro de uma lata sobre rodas, mesmo Leito Ultra Especial Plus Max com ar condicionado: amor. É isso, amor é o motor interno que nos tira da cadeira de casa um dia e nos leva ficar de pé em um guichê para comprar uma ou mais passagens. Amor de mãe, pai, tia, primo, avó, avô, amigos e, finalmente, de homem e mulher. A ordem dos tipos de relação não necessariamente tem a ver com o nível de importância que imputo pessoalmente, isso depende de cada um consigo mesmo. Alguns tem tios que amam, outros preferem os avós, outros perderam os pais, outros toda a família e, portanto, uma nova família é montada, seja com alguém, seja com amigas/os.

Assim como o tipo e nível de cada relação varia, também variam as motivações: tesão, dinheiro, interesse, carência, real amor às vezes recíproco, às vezes não.

Quando estava pensando sobre falta de amor eis que surge à minha frente um cara que é a imagem perfeita da falta de amor completo: seja amor próprio, seja amor por ou de terceiros. Foi tão sincronizado pensamento e aparição que desconfio do que veio primeiro; não sei se meu olho viu, mas meu cérebro demorou alguns segundos para registrar, afinal são seis e vinte e cinco da manhã de SÁBADO! Ou se ele realmente surgiu depois que eu havia pensado sobre a falta de amor. Mas, o que interessa é que ele, o cara, já estava ali sentado; sei disso pois já tem, acreditem, um chope à sua frente, seis e meia da manhã, e, um cigarro, para acompanhar. Kamikaze! Pensei eu. Até isso prova uma certa falta de amor próprio - devaneio um pouco mais em meus pensamentos.

A bem da verdade ele não surgiu do nada na minha frente, tomei conhecimento de sua existência porque este foi descortinado frente a meus olhos após eu acompanhar com a devida atenção uma mulher que, se esta história se passasse em um deserto, eu juraria ser miragem. Pela hora pode ser tudo um sonho... Será?

Esqueci o sujeito, que pelo visto ficaria ali para sempre, e segui observando em partes a dita miragem do café da manhã; meu critério de observação não seguiu a já pré-estabelecida ordem didática: cabeça, tronco e membros. Meu radar foi guiado um pouco por meu interesse pessoal da anatomia feminina, que agora não vem ao caso comentar, mas também, um pouco, em verdade muito, atrapalhado pelo mundaréu de pessoas que se interpunham entre mim e aquela visão colossal. Tive que me contentar com o que me era permitido ver e, devo dizer, fiquei satisfeito. Muito satisfeito.

De repente um grito rouba minha atenção por uns segundos e, quando volto, percebi que tinha perdido de vista a mulher/miragem. Insisti, procurei por uns minutos e... Nada. Tinha realmente sumido. Me conformei, devia ter ido embora e nunca mais a veria. Segundos de tristeza e alguns mais de desânimo tomaram conta de mim mas, o que fazer, a vida é assim.

Procura daqui, procura dali. Cenas lindas de encontros e reencontros trazem milhares de possíveis histórias à minha mente. Fosse eu um taquígrafo, talvez tirasse daqui uns sei lá quantos contos por hora. Pensei e decidi: se um dia tiver meu espaço em jornal, revista ou até mesmo livro e, me vir sem inspiração, venho a rodoviária. Aeroporto também serviria mas acho que é menos dramático. Na grande maioria das vezes, as viagens são mais curtas e as pessoas – algumas – mais insossas e enquadradas em padrões sociais tornam tudo meio sem sal.

Opa!!! Um casalzinho se beija calorosamente. Uau! Fiquei até, confesso, com uma certa inveja. Perai!!! Puta! Um surfista quarentão e sua prancha long board passam na minha frente e bloqueiam a visão romântica que estava tendo. O que aconteceu ? Estou sem entender até agora. Assim que a prancha acabou de passar procurei o casalzinho romântico e eles estavam quase saindo na porrada, intempéries do amor, acho que nunca vou entender, ainda bem.

Outra mulher linda passa pela minha frente. Apesar de vestida de forma meio esquisita e do grande número de gringos* por perto dela, a nova deusa - como sou volúvel - tem a pele morena que somada a bunda, não deixavam dúvida: tem procedência nacional.

Meu telefone toca. Preciso ir para a plataforma 53. Depois de uma hora e treze minutos de atraso, finalmente.

O que eu estou fazendo aqui? Vim pegar.... “ Oi !!!!” Isso é outro assunto. Fica para outra crônica.

*(eu sabia, a esta hora não podiam ser todos cariocas ali, talvez só eu e mais meia dúzia de zumbis)

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O ritmo

Por Isabel Paixão


Ele tinha tantas notas engasgadas em seu próprio peito. Tantas canções.

E lá estava ele, mudo. Porém, dentro de si uma sinfonia estourava em mil acordes.

Ensurdecendo tudo ao redor.

Já faz algum tempo que ele esquecera do mundo ao redor. Não ouvia e não via mais nada, além de seu próprio peito.

Tudo para ela. Só ela importava.

Mal sabia ele que no coração da moça eram outras as melodias.

O peito dela palpitava, agora, em um ritmo diferente. Um ritmo que não era mais o dele.

Ela, então, confessou. E ele ouviu todas as composições, tudo o que ela havia feito para outro. Ela chorou. E ele riu, fazendo cara de quem entende.

Despediram-se em acordes tristes e desafinados.

Os sons no coração dele não cessaram.

Mas estavam ficando tão baixinhos perto do coração da moça. Compunha, agora, canções com promessas. Mudara o seu ritmo em prol da moça, e apagara aquelas melodias, das quais ela não gostava.

Mas de nada adiantou. Para que serve o amor só em pensamento?

O peito da moça ensurdecia o mundo. Um outro ritmo, um novo ritmo.

Que não era mais o dele.

Até que...

O mundo pode ouvir o estalo seco.

A música cessou no coração do rapaz.

E ele encerrou a melodia no coração da moça.

Bem ali no coração da moça, só restou o estacado.

Não há mais melodias, nem partituras.

E o amor?

Nada dele restou.

É que amor...

É uma questão de ritmo.

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Repintando o amor

Por Maricéa Martins Zwarg

A vida criativa é a única que compensa. Enquanto assim ela pensava, ele dizia:


- Você está bonita.

Sim, ele sempre o dizia e ela sabia estar bonita, ser bonita, e na verdade ligava muito pouco para isso. Sempre atraíra os homens, mesmo agora, aos 40, e parece que isso se acentuara com o tempo. Tipo mignon, nenhum modelo de beleza, mas a mistura de personalidade forte, o sorriso largo, fartos cabelos e corpo bem proporcionado lhe davam aquilo que chamam “sex appeal”. Ela preferia a palavra carisma, outra visão. A vida criativa pulsava dentro de si enormemente, e essa ele parecia nem notar ou se importar, e a paixão por aquele homem foi morrendo, esfriando, quando de um deus ele passou a ser somente... homem. Igual a tantos.

Culpava as mães, desejava escrever artigos que desmistificassem a figura da mãe, tão dedicada, pois sim. Dedicada a criar mulheres para a lida e vida e homens para serem o sexo frágil, superprotegidos, dependentes, sempre à procura do peito, da satisfação dos sentidos, da papinha, do colo. Será que ele nunca a enxergaria por dentro? Nunca olharia seus quadros com admiração, nunca vasculharia seus pensamentos com o prazer da troca de outros sentidos que não o corporal? Na maior parte do tempo, ela pouco se identificava com o feminino ou masculino. Queria apenas ser alma, etérea, flutuante, captando imagens e sensações e transportando-as às telas, as mãos rápidas e leves trocando os pincéis em imensas viagens coloridas.

E ele ali, parado, querendo mamar, o macho pleno. Ela então usa a tática óbvia feminina: dor de cabeça. A velha desculpa para o tédio. Como um ator com seu talento podia andar tão na superfície? Vai ver, deixava toda a essência para os personagens. Saindo do palco ficava só o macho pulsante – conjeturava ela. Suspira. Ele sai, some por uns tempos, ela o vai esquecendo. Busca a Internet, triste alternativa à solidão. Entre os e-mails, o de um homem que havia visto algumas de suas exposições. Visitara sua página e descobrira seu e-mail. Dizia nunca ter tido a coragem de dirigir-lhe pessoalmente a palavra, mas descrevia seus quadros como se estivesse dentro dela, captando sua essência e tudo o que ela desejava dizer com suas imagens, e ouvir de um homem.

Ela nem acredita, há tanto louco procurando excitação na Internet. Mas troca idéias e mensagens por dias, um, dois meses. Estava se apaixonando por um homem virtual, alguém que a completava e a compreendia por dentro. Resolve arriscar, marcam um encontro no Café das Artes. Ele descreve a roupa e combinam o horário. Ao chegar ela avista a camisa verde, ele sentado de costas para a porta. Ela se aproxima, e Renato, o ator, vira-se e lhe sorri. Nas mãos, rosas vermelhas e uma tela em branco.

(18.05.2004)

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O amor começa

Por Elis Galvão

; é. Confesso que sempre achei o meu nome estranho, sempre achei uma viagem isso do meu pai ter me dado o sobrenome dele e o primeiro nome do Charles Bronson para me conceituar e reafirmar que era um fã do camarada – cara das antigas o meu velho. Sim. Eu sei. O mau gosto também existe nas melhores famílias. Vou te ligar, ok? Vamos marcar um café? “Ok”, ela me disse sim! Fiquei esperando ela ligar no dia seguinte, mas ela não ligou no seguinte nem no outro nem no outro nem no outro... Ela sumiu. Será que ainda é ou era minha amiga? Boa pergunta.

Faz um tempo tudo, foi no início do outono, ela me ligou, veio a minha casa, levou-me para o pomposo e formal bar Informal no Leblon, pediu para que caprichassem na espuma do chope – “olhe, este é único no Rio que tem uma espuma de veludo, sabia?” -, e resolveu ler a Obscena Senhora D. Naqueles dias andava meio lerdo e não entendi muito o conto, nem o porquê dela estar lendo para mim. Seguimos bebendo, enquanto a bebida descia gelada e cortava meus pensamentos, a chuva despencava do céu rasgando as nuvens. Ela: “vamos!” Fomos. Entramos no carro, ela parou no sinal vermelho, me puxou e passou a língua nos meus lábios, mordiscou, beijou. Parecia que queria me ensinar algo. Mas o quê? Seguimos em silêncio, chegando nas proximidades da minha casa escolheu uma rua que não era a minha, parou o carro, passou a língua nos meus lábios, mordiscou, beijou. Eu? Eu parecia mais um menino sambudo, daqueles que adoram travessuras, dando os primeiros beijos no escuro. Ela me puxou com força para cima dela, esfregou o seu sexo no meu e quando enfiei as mãos para apertar seus seios, ela já tinha acabado.

Há lugares escondidos. O amor pode começar escondido num lugar público ou com um riso que desenha a boca ou no meio de um compasso da cadência de um samba ou nas curvas de um corpo que agrada os olhos ou diante de uma imagem escondida entre palavras ou no sonho de uma fantasia sonhada para vestir o sonho do outro ou com a ausência do peso dos dias ou numa hora compartilhada em um carro apertado ou da ansiedade para ouvir trimmmmmmmmmmm. Ou como o meu que começou onde acabou; é.

Sunday, October 10, 2004

ELEIÇÕES

Eleições 2004 – no tom do Rio de Janeiro

Por Maricéa Martins Zwarg

Gosto de votar na cidade onde moro. Assim, já votei em Itanhaém, Santos, São Paulo, e agora no Rio de Janeiro. Muito esquizofrênica, dividida entre a razão e a paixão como todo artista que ainda não se firmou, vim em busca de harmonia e equilíbrio, aquele ponto do meio de que falam os budistas. Utopicamente, achava ser o Rio o lugar ideal, por ser aqui onde a paixão – o mar e a natureza – e a razão – a cidade, convivem na mesma medida e intensidade. Ledo engano.

Cheguei em meio aos caos e num dos epicentros do caos fiquei, pois moro há um ano em Copacabana. Vi o povo carioca tão esquizofrênico quanto eu, uma parte movida à paixão, achando tudo ainda maravilhoso, ignorando ou fingindo ignorar o caos. Uma outra, teoricamente revoltada, cheia de razão, escrevendo cartas aos jornais, espalhando faixas de protesto, colando adesivos nos carros, mas sem ações concretas. E uma terceira, apática, nem de um lado nem de outro, como se o caos não a atingisse ou a deixasse letárgica, ou ainda com ações graciosas e sem nenhum sentido prático, como dar abraços e flores nas favelas. Porém, otimista que sou, pensei: ah, mas as eleições estão aí e tudo vai mudar, hô,hô,hô! Ledo engano.

Ao avaliar os candidatos, vi que nenhum deles preenchia o meu ideal de harmonia e de cura para a esquizofrenia do Rio e seus habitantes. O então prefeito e candidato, cheio de grandes feitos para o lado “de fora” do Rio, esquecendo-se das coisas miúdas e fundamentais ao bem-estar do cidadão. Um segundo, cheio de boas intenções para com o lado “de dentro”, a população carente, mas com um ranço religioso que pressupõe preconceito e discriminação aos de fora de seu rebanho. Um terceiro, arquiteto, com o apoio do fantástico Niemeyer, e talvez com uma visão maior dos dois lados, porém respaldado por um casal de governadores, pode-se dizer assim, um tanto quanto trapalhões, para dizer o mínimo com delicadeza. Um quarto, ostentando a estrela do apoio presidencial, com muito boas propostas de governo, mas sem os devidos – perdão – culhões para tal empreitada. E ainda uma quinta, cheia de paixão e vontade, mas sem apoio político para chegar a algum lugar. Minha esquizofrenia, de dois lados dividiu-se por cinco, e corri para meu antídoto predileto: a música de Tom Jobim, retrato de um Rio de outros tempos, mais humano e feliz.

Tom tinha o dom de dar o mesmo peso, medida e intensidade para os cinco elementos da canção: melodia, harmonia, ritmo, letra e emoção. Assim, o candidato que tivesse as cinco pontas da estrela que compõem uma canção – a espiritualidade melódica do Crivella, a harmonia pacífica do Conde, o ritmo forte e contínuo de César, os argumentos da letra de Bittar e a emoção intensa da Jandira, é quem faria a estrela do Rio voltar a brilhar. Então, pela primeira vez, por absoluta falta de opção e com muita tristeza, votei em branco. Mas se o voto fosse de papel, escreveria lá: Tom Jobim.

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Além dos contos de fadas

Por Ronize Aline

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Desde que me conheço por gente – e isso foi por volta dos 3 ou 4 anos quando, passando em frente ao espelho oval do quarto de minha mãe, percebi que aquela garotinha que me olhava desconfiada era eu mesma – os almoços de domingo da família são na casa de minha avó. Não, ela não é viúva, mas todos que têm uma avó que, além de cozinhar maravilhosamente bem, demonstra um talento nato para transformar uma simples casa num ninho de aconchego, sabe o que quero dizer quando falo que a casa é dela.

É difícil descrever a sensação ao passar por aquela porta e deixar o resto do mundo do lado de fora. Lá dentro a vida é calma, carinhosa. E, como se fosse lei promulgada e sacramentada, ninguém fala das coisas que se fala do lado de cá da porta: violência, desemprego, doença. A casa de minha avó é um oásis onde, uma vez por semana, vou repor minha sanidade. Lá, e somente lá, é possível sentar-me no colo dela e sentir meus 8 anos, o rosto lambuzado de sorvete, as duas a correr pelo parque sem saber qual se fazia mais criança. Abraçar meu avô e aspirar o cheiro almiscarado de sua loção pós-barba como quem aspira de volta uma tarde longínqua, um cavalinho de pau e ele a sustentar-me sobre aquele que me levaria a enfrentar meus próprios moinhos de vento infantis. Marceneiro, meu avô construiu meu cavalinho de pau e tudo mais que ainda hoje me parecem as coisas mais bonitas do mundo. Com a proximidade de meu casamento ando mais sensível a esses sentimentos familiares, depositando em meus avós o ideal de convivência que pretendo alcançar com meu futuro marido. Jamais se soube de briga entre eles, nem um mínimo desentendimento tão comum à rotina dos casais.

Ontem fui sozinha ao encontro semanal, já que meu noivo, médico, estava de plantão. Cheguei mais animada do que o usual pois havia realizado a última prova do vestido. Daqui a sete dias estará pronto e, depois de mais sete, poderei usá-lo oficialmente. Estava tão feliz que queria dividir essa alegria com todos. No entanto, assim que entrei na sala percebi que as coisas não estavam como costumam estar todos os domingos. Havia um muxoxo no ar, um certo desamparo, como se os querubins houvessem abandonado aquela casa. Havia também um cochichar constante que parecia cessar quando eu me aproximava de alguém. Não querem me trazer mais preocupações, pensei. Mas ficou inevitável quando percebi que meus avós, sempre tão carinhosos entre si, não estavam se falando.

Discretamente fui colhendo informações que se configuraram no seguinte quadro: houvera uma briga entre eles. Pior: uma briga pública. A discussão começara no metrô e se estendera por todo o Flamengo até chegarem em casa. Vovó acusando vovô de ter uma amante (senti uma leve tontura). Vovô negando (minha pressão parecia baixar). Vovó enfrentando-o ao dizer que ele não seria capaz de bater nela com um cabo de vassoura (meus olhos ficaram turvos). Vovó atemorizando vovô com a possibilidade de ele ser morto pelo namorado da tal amante (só me lembro do baque seco que minha cabeça fez ao bater no chão).

Não fui trabalhar hoje pois ainda me sinto muito fraca. A secretária eletrônica coleciona recados de um noivo aflito. Não sei se quero ou não falar com ele. Não é fácil descobrir que existe algo além do “foram felizes para sempre”.

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(Sem título)

Por Mária Novaes


Eis uma história da estirpe das “se me contassem, não acreditaria”. Mas, meninas e meninos, plagiando Gonçalves Dias, EU VI! Apesar de sua aparente irrealidade, conto o que parece mais um episódio de “Além da imaginação”.

Estava eu caminhando quando passei pela delegacia de meu bairro e percebi uma movimentação estranha. Curiosa que sou, me aproveitando da amizade com o delegado de plantão, adentrei a delegacia e procurei saber o que acontecia.

Uma senhora idosa logo na entrada gritava: “Assassino! Assassino!” O corpo tremendo em um bailado parkinsoniano. Do lado oposto, outra senhora contestava e ofendia a primeira chamando-a de rameira e prostituta. No canto da sala, encolhido e protegido por dois policiais, um senhor igualmente decrépito, aguardava. As mãos, braços e a camisa xadrez banhados em sangue.

Havia sido cometido um homicídio. O assassino, o senhor aparentemente indefeso e inofensivo. O morto, um pitboy de 25 anos.

Naquela tarde, o senhor, como de costume, visitava sua amante quando o pitboy apareceu exigindo explicações. A amante, além do velho, mantinha um caso com o rapaz. Uma paixão, segundo a amante, incontrolável. Violento, o rapaz partiu logo para briga. O velho sacou sua bengala e lhe rachou a cabeça. Fim da briga.

Essa história passaria sem uma explicação e seria prontamente arquivada, não fosse a interferência de uma testemunha que, mal soube do caso que já era um ti-ti-ti no bairro, se apresentou ao delegado. E contou que, horas antes, enquanto passeava pelo Flamengo em direção ao Metrô, havia presenciado a discussão da velhinha com seu marido, quando ela gritava em alto e bom som a infidelidade do velho e, pior, a infidelidade de sua amante. E ainda jogava na sua cara a juventude do rival.

Graças ao depoimento dessa valiosa e intrometida testemunha, pôde-se elucidar o caso dos velhinhos. Perguntado à testemunha o que fazia nas redondezas, disse que colhia material para uma crônica sobre a terceira idade.

Ironias da vida à parte, o que poderia se esperar de um escritor?

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Difícil de acreditar

Por Isabel Paixão


Difícil de acreditar, mas as eleições acabaram. Resta-nos alguns santinhos perdidos em gavetas estufadas. Ou ainda, alguns outros. Santinhos sobreviventes se deteriorando pouco a pouco em algum solo úmido do Rio de Janeiro.

Vale lembrar que, quem sobra nesta história não são os candidatos rejeitados pelo povo, muito menos os santinhos perdidos e abandonados pela cidade. NÃO. São os garis de todo o país. Como disse uma gari muito simpática, varrendo pacientemente ruas envoltas de papel : “É! Alguém aqui tem que fazer a coisa limpa!” Boa observação...

* * *

Esta foi a minha primeira eleição e, em se tratando de primeira vez, vale lembrar que a gente nunca esquece! Realmente. Não me esquecerei do marketing eleitoral encabeçado por meu pai em prol de um vereador muito amigo seu. “Já escolheu vereador? Não? Então vota no Gallo! O resto perto dele é pinto. Ele ainda tem uma vantagem: acorda cedo!”

Decerto também não esquecerei de momentos antológicos como, às vésperas
da eleição, uma candidata a vereadora dentro de seu jipe distribuindo panfletos, bótons, sorrisos, camisetas e até camisinhas. Tudo com a sua foto e o seu número estampado. Tais objetos devem ter alguma utilidade. Passei um bom tempo refletindo nisso. Alguma eventual utilidade...

Um amigo sugeriu que, cheirando com muito vigor aquela camiseta, se poderia ter uma “onda maneira”. Foi uma idéia. Mas, às vésperas de uma eleição, preferi não por em perigo as sobras de lucidez que ainda me restavam. Bom, ainda temos as camisinhas. Essas, sim, tem sua utilidade incontestável. Mas um conhecido retrucou, que andar com uma camisinha daquelas no bolso é deveras arriscado. Ele tem razão. Olhar para aquela foto sorridente é um tanto quanto brochante.

MAS, ainda temos os bótons! Sim! Esses devem ter alguma utilidade!

* * *

Quem descobrir, por favor, me mande um e-mail.Dizem as más línguas, que foram gastos exatos 3 milhões na campanha da tal candidata. Uma campanha que não deu em nada, já que ela não foi eleita.

Três milhões em troca de sete mil por mês. Particularmente, isso é incabível no meu mundo. Para explicitar ao leitor a minha questão, não resisti e dividi os tais 3 milhões pelos míseros 7 mil reais. Equivalem a 428 salários de um vereador. São mais de 35 anos com 7 mil reais todo mês. Para bater essa meta, a candidata teria de ser reeleita 9 vezes! Se vocês estão seguindo meu raciocínio, terão de concordar que teria sido mais inteligente ficar com os três milhões no bolso, em vez de gastá-los com camisinhas, camisetas, sorrisos, e em benditos bótons!

Três milhões, em troca de nada... De nada, não! Ela ganhou uma crônica!

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Eleições

Por Felipe Carneiro

6:30 am – O despertador grita em seus sonhos. Um olho se abre e constata o óbvio: chove. E o pior de tudo, chove fino, num pinga-pinga interminável. O jovem, que recém tinha completado 18 anos, levanta e vai, tropeçando nas roupas e tênis usados na noite anterior, até o banheiro. Olha-se no espelho e vê olhos vermelhos e inchados. Depois de se perguntar se seus olhos estariam assim de raiva ou de sono, lava o rosto na água gelada.

Na mesa do café com a família extravasou o mau-humor até com o cachorro. É um absurdo obrigar as pessoas a trabalhar de graça, porque o sistema não funciona, porque todo mundo que ele conhece vai votar nulo ou na Jandira, sabendo que ela vai perder, então não adianta nada. Ainda por cima tinha que acordar cedo no sagrado domingo. E dá-lhe patada em resposta a qualquer tentativa de comunicação.

Acordado pelos maus modos do filho à mesa, o pai levanta e aparece na sala sem sequer um “bom dia”. Por que muito amigo dele foi torturado e morreu para que os filhos estivessem trabalhando naquele dia, que é um dever do cidadão, que o filho desse graças a Deus por não ter passado por uma ditadura.

O filho vai para um colégio perto de casa conferir títulos de eleitor da terceira idade em Copacabana, o pai volta a dormir. No fim do dia, os dois estão juntos em frente à TV, assistindo ao espetáculo da democracia por todo o país, e recebe a notícia de que César Maia (do partido de ACM) exercerá seu terceiro mandato de quatro anos na prefeitura. Sem contar o governo Conde, que se elegeu com o slogan “Conde é César, César é Conde!”.

Me desculpe, mas não sei o que pensar disso tudo.

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Irene não quer votar

Por Elis Galvão

Ela comprou velas na esquina da Miami Show -Erotic House com a Nossa Senhora de Copacabana, ali na altura da Praça Serzedelo Correia (a praça dos paraíbas). A mulher pagou por uma dúzia de velas, trocou meia palavra com os dois vendedores e seguiu observando as fachadas: Itaú, Pluft, Centro Comercial Copacabana, Bradesco, Oi, HSBC, Rustin’s Calçados, Edifício Jamil, Zona Sul, Banco Real, Aipo & Aipim, La Beaute, 605 Ed. Júlio Siqueira, Esfera, Setembro – Exchange Passagem, Pitágoras 613, Afghan, Blockbuster. Talvez pela primeira vez ela tenha conseguido enxergar as fachadas dessa quadra. Ficou um par de minutos na esquina da Blockbuster esperando o sinal abrir. Sinal verde, ela seguiu: Asty Moda Infantil, Edifício Tavares 637, Pontapé, O mundo oriental, Beira D’agua, Banco Morada, Maikai, Unibanco, McDonald’s, Ledo 647, Só fantasias, Banespa, Edifício Emboada 661, Bingo Copacabana, Germana, Studium Ginástica, Charutaria Lollô.

A mulher entrou na charutaria e desapareceu. Fiquei na frente observando meus fetiches da linha Zippo e maços de Borkun Riff, meu tabaco preferido com aroma de Bourbon. Resolvi comprar um Lucky Strike e pedir um café. Um senhor grisalho tropeça nas minhas costas e diz - mesmo sendo dia: “Buenas noches, senhores desgraciados!” Virei e o homem desapareceu entre as dezenas de cabos eleitorais que sujavam as calçadas com panfletos e santinhos de seus candidatos. Na esquina da Santa Clara, um rapazinho solitário destacava-se com outro tipo de propaganda, ao contrário dos outros que por 5, 10, 15 reais vendiam Conde, César Maia, Crivela e afins, ele fazia de seu corpo suporte para dois cartazes de um Sex Shop localizado na Siqueira Campos.

Já passava das 15h, dei a volta na charutaria, pois o café ficava nos fundos. Lá estava a mulher que segui desde a esquina na Miami Show. Pela primeira vez vi uma coisa pouco usual em um café carioca, duas senhoras sexagenárias no lugar das meninas de vinte e poucos anos à frente de um café. A senhora que segui se chamava Irene, veio da Paraíba aos 18 anos e estava ali ganhando o seu pão junto com sua amiga Madalena, uma mineira sisuda cuja simplicidade revelava sua elegância. Ao olhar a face de Irene, marcada pelo tempo e pelas dificuldades, me deu vontade de chorar e pensei: que Maria Mole estou! Irene nem precisou falar para me comover e parecia tão alheia a todo processo eleitoral: “Vivo no Vidigal, onde a polícia de mentira fecha as ruas direto, não quis transferir meu título para cá até hoje. Se a polícia não é de verdade lá, porque os políticos vão ser?” Terminei meu café, contribuí com uma gorjeta para a caixinha – decorada com notas minúsculas de 1 real - das senhoras e segui pensando: como seria o Rio sem nordestinos?

Precisava voltar para Laranjeiras, moro lá e devia ir a zona eleitoral mais próxima da minha casa. A campanha eleitoral carioca foi tão empolgante que no dia de votar estava enrolando o tempo em Copacabana. O vergonhoso impasse do Rio era: entregar o município para o maluco corrupto ou para a igreja universal?

Subi no 583, passando pelo Flamengo uma pichação chama minha atenção: “De que vale a liberdade se não temos o direito de errar”. Desci na Rua das Laranjeiras, entrei na Hebraica e justifiquei meu voto.

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O eleito

Por Francisco Malta


O Rio amanheceu como eu gosto. Céu azul e muito sol. Sabe, aquele dia propicio a sair para caminhar agradecendo o momento presente. Mas aí olho para a mesa e vejo os capítulos da novela. Hora de ir para o trabalho.

Da janela admiro a paisagem da cidade que vai sendo cortada pelo carro apressado. Música da Vanessa da Mata: “Ainda bem”, invadindo a cena e colorindo ainda mais a paisagem. Cena familiar. Repassando as cenas percebo que todo capitulo gira em torno de Reginaldo, o político corrupto da novela “Senhora do destino”, de Aguinaldo Silva. Em tempos de eleição, o autor faz uma crítica feroz aos políticos através do filho da nordestina Maria do Carmo.

No país do “ faz de conta, do jeitinho brasileiro” é muito comum ligarmos a TV e perceber de cara o discurso de quem não faz nada. Somente promessas. Isso me traz a memória uma fala de Gerald Thomas quando este afirma que o maior ator do Brasil é Antonio Carlos Magalhães – o coronel da Bahia. Gerald tem razão. Sempre que este aparece em entrevista, ele pára alguns segundos, buscando as palavras, respira, olha, lacrimeja por um olho e vai. Parece que tem uma câmara lhe orientando. Estes são os chamados enfermos deste país e deles precisamos nos livrar logo.

Bem... Há que contestarmos. Sentimento artístico o coronel Antônio Carlos não tem. Todo artista tem um propósito e isso já difere bastante deste senhor. Nossa arte é alegre, cheia de cores e vive a contagiar o próximo com sua luz.

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A procura de um novo herói

Por Liana Rodrigues Dantas

Enquanto isso, lá fora, sob as notas musicais de ‘Com que roupa’ e ‘João Ninguém’ um mar de gente assalariada está chacoalhando bandeiras e panfletos.

Seria uma festa?

”Desta vez ele sai!”

Laurita exclama em frente à tv dirigindo-se ao atual (e agora reeleito) prefeito César Maia. “Não é possível, quanto mais os outros candidatos falam mal dele, mais ele sobe nas pesquisas!”

E assim foi toda a temporada de eleições. Ela e suas “companheiras” do SEPE-RJ (SINDICATO ESTADUAL DOS PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO DO RJ) lutando e militando contra o prefeito. Muitas reuniões. Sim, muitas delas. Encontros em Itatiaia, e até em Brasília. Biscoitinhos amanteigados e muito guaraná.

“Eu votarei em quem minha mãe votar”

Valéria diz com um ar delgado e descompromissado, de qualquer importância que o ato de votar possa a vir ter no mundo. Abre um pacotinho de amendoins Nakayama, comenta sobre o preço dos novos aparelhos de celular, cantarola a nova música da Wanessa Camargo e demonstrando uma ansiedade curiosa: “...para vereador não sei, minha mãe ainda não disse!”

Cyro chega do expediente cansado. Para quem aprendeu a tocar violão sozinho, veio de Vitória da Conquista (BA) até aqui seguindo sua intuição, tocou com alguns músicos hoje consagrados e agora brochantemente trabalha no Ministério da Fazenda, declara tristemente seu voto: “Eu queria mesmo é votar em mim! Mas como não estou concorrendo, votarei no mais perturbado, ou mais cansado, pode ser também o mais sofrido, ou o com cara de maluco.”

E conclui enfático: “Alguém precisa me representar!”

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Não dê esmola, Dê Cidadania

Por Regina Hesketh

De forma alarmante, notícias nos chegam de crianças em trabalho escravo no Nordeste. Ficamos comovidos. Chocados. A notícia é triste, terrível. As autoridades sentem-se na obrigação de se agitarem e algo acaba acontecendo para tentar mudar a situação dessas "crianças escravas nordestinas".


De forma corriqueira vemos quase todos os dias no Rio de Janeiro em seus mais diversos pontos, em ruas e avenidas importantes e famosas, bastante movimentadas por pessoas também importantes e famosas, muitas crianças, bebês inclusive, que de forma "escrava" servem de arrimo para sua família ou famílias de terceiros.


Refiro-me a crianças de todas as idades que acompanham suas mães ou mães de fingimento, que muitas vezes são mulheres saudáveis e até bem jovens, fortes para o trabalho, mas que usam as crianças como instrumento para adquirirem dinheiro de forma "preguiçosa e exploratória". E não ganham pouco. E pouco vai para a criança.


São mulheres já bastante acostumadas a carregar um bebê no colo ou ter a seu lado crianças para que essas, de forma escrava, saiam pedindo por dinheiro ou vendendo balas enquanto esses adultos, mães ou supostas mães, se espreguiçam e se encostam pelas calçadas das ruas. Esses bebês e essas crianças são escravos de mulheres (ou homens) preguiçosos e bem diante de nossos olhos. Praticamente não fazemos nada. Pouco nos comovemos. A situação é muito comum e banal. As autoridades pouco também fazem. Mas se essa situação existe, nós a sustentamos. Somos mantenedores desse panorama pelos trocados e por tudo que fornecemos a esses preguiçosos e exploradores adultos de crianças.

Somos mantenedores da situação escrava de bebês que ficam na rua com sol, calor, frio, chuva, se alimentando mal, dormindo mal, fumando por tabela (já vi muitas mães com criança no colo e cigarro na boca), recebendo toda e qualquer poluição atmosférica e sonora.

Somos mantenedores da situação escrava de crianças que são obrigadas a pedir por dinheiro ou a vender balas até durante a noite. Crianças essas que são roubadas do direito de ir à escola, se alimentar bem, ter roupa e calçado decente, brincar de forma saudável.


As autoridades pouco se agitam. Tudo, repito, é muito comum e banal. E nós, os provedores, também tão acostumados estamos, que nem percebemos que a mesma mulher jovem que ontem estava com um bebê no colo, hoje traz outro bebê e ainda bem diferente do anterior. Ambos tão pequeninos, indefesos, mas já tão responsáveis e se sacrificando para sustentar supostas famílias.