AS ÚLTIMAS CRÔNICAS (DA OFICINA, EU ESPERO!)
3 x 4
Por Marcia Novaes
Dentre os vários caminhos a mim oferecidos, escolhi este para passar o tempo sobre a terra: descobrir quem sou. Uma vez ciente de meus contornos, quem sabe consiga compreender melhor o que os transcende.
Nasci em algum lugar em alguma hora específica do dia. Decerto, era manhã. Não possuo os vícios de quem chega ao planeta em horas sombrias. Mais certo ainda, não tive parto forçado embora a pressa não seja a companheira de meus tantos momentos.
Sou de natureza contemplativa e o pensamento é uma segunda pele que percorre os poros questionando-os, sempre, sobre suas funções e deveres. Só muito mais tarde percebi que também possuía direitos.
Direito a ser feliz e coerente com o de dentro, embora a coerência não seja o forte de minha constituição. Leio muito e escrevo bastante. Faço desta combinação binária a voz guia de minha apresentação.
Dos pecados capitais, assumo parte da gula, da preguiça e pedaço mínimo da inveja. Todos somos mortais. Em momentos drásticos tenho acessos de fúria onde me contorço em intolerâncias e aversões. Da luxúria não sou escrava mas tenho as costas lanhadas pelo “pecado” da carne.
Não reconheço rostos com facilidade e não percebo detalhes. Guardo questões que me maltratam e só aos poucos as ponho no papel. Me alimento de novidades e interesses, não sou fiel a uma paixão única. Quando não estou feliz, me escondo e muitas vezes me condeno, física e mentalmente. Até o dia em que tudo chega ao fim, de forma violenta e inesperada. Meus cinco minutos de ira.
Passional e intensa, sou pouco compreendida. Nem todas as lágrimas apagam os enganos. Talvez por isso distraia os outros dando vida no que não há, sons e vozes ao que não existe, fantasmas e inseguranças à realidade crua em que vivemos.
Neste caminho de ladeiras, esquinas e encruzilhadas, me comprometo de forma definitiva. Compactuo com o que me exige respostas. Peço tempo. Mais tempo. Nem que tenha que vender a alma para poder entender o porquê dessa busca, dessa falta que jamais preencheremos. Sou, essencialmente, existencialista.
Não sou de todo má. Um pouco confusa, tímida e cruel. Mas isso é apenas um detalhe.
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O mundo a descoberto
Por Márcia Novaes
Uma bolsa vazia carece de alma.
Talvez por isso as mulheres as tenham sempre cheias. Suas bolsas, quando abertas, desvendam mistérios e antecipam o juízo final. Transbordantes em acessórios, detalhes e miudezas, carregam o mundo. Cada objeto, por mínimo que seja, traz uma história, um motivo e um fim. Mesmo que o de coadjuvante frente a uma galeria de astros.
Batons, lápis, canetas, blocos, brincos, moedas, celulares, agendas, comprimidos, chaves, chicletes, agulha, linha, contas, bilhetes, cartões, cigarros, isqueiros, camisinhas, amuletos, livros, colares, botões, uma infinidade de seres e coisas possíveis e imagináveis.
Tudo se pode encontrar . Porque a alma da mulher é ampla. Como uma planície que se estende sobre as oscilações da vida. A tudo cobre como um lençol de cores variadas. A alma das mulheres é rica em detalhes, remendos, retalhos. Quem negará a incompreensão perene que a todos assombra quando ouve-se, do nada, um “você não me entende” ou quando, sem mais nem menos, uma lágrima desliza sobre sua pele sempre tão fina, sem as escarpas de pêlos e cortes da pele do homem?
Em uma bolsa de mulher se pode conhecer sua outra face. O que esconde por timidez ou medo. O que sugere por olhares e sorrisos. Em uma bolsa de mulher atravessamos o túnel de existência rumo á gênese, ao raiar do primeiro dia. Se nada encontramos é porque a procura não foi digna, o viajante há que se refazer e tentar novamente.
Quando uma mulher abre a bolsa ao seu lado, despudoradamente, mostra mais que a alma, mais que o corpo de curvas e desvarios, mais que seus lagos de águas límpidas e doces, que seus desertos de aridez comovente.
Quando uma mulher desvenda aos nossos olhos o que traz a tiracolo, é um pedido, não, é mais que um pedido, uma ordem. Ordem de entrega total. Impensável então, depois de chegar tão perto, virar as costas e perder, para sempre, a terra sagrada.
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A vizinha da frente
Por Maricéa Martins Zwarg
Sempre tive uma visão fantasiosa e lúdica do mundo ao meu redor, dessas que quando alguém está falando ou algum fato está desenrolando-se à minha frente, logo um fundo animado e personagens de desenho em quadrinhos criam-se em minha mente, geralmente com algum sentido de deboche que, segundo meu pai, vem de nosso lado alemão. Esse lado da família sempre foi alegre e irreverente, enquanto o lado português é mais melancólico e saudoso. Também segundo os debochados da família, o alemão é apenas um português que aprendeu matemática.
Mas vamos à vizinha. Precisando eu morar por uns tempos num pequeno conjugado em Copacabana, convivi por essa ocasião com várias vizinhas pra lá de idosas. Um dia, ao sair do elevador, eu a vi e ouvi, balbuciando um “boa noite” ao qual não ouvi resposta, e um arrepio percorreu-me a espinha. Entrei rapidinho em casa, fazendo sinal da cruz, crendo piamente ter estado diante de nada mais nada menos que Madame Min, aquela amiga da Maga Patalógica, que juntas vivem a perseguir o Tio Patinhas. Essa senhora, que Deus me perdoe, tinha totalmente a cara, o corpo e a voz das bruxas que atormentaram minha infância nos contos dos quais desejo Deus livre logo todas as criancinhas. A dita senhora era baixinha, com mais ou menos um metro e meio, corcunda, com vasta cabeleira cinza-azulada e enormes sobrancelhas escuras que juntam-se em “v” entre os olhos, dando-lhe um olhar malvado e tirânico. Além de tudo, dona de uma voz cavernosa , gutural. Fixava-se eventualmente à porta de seu apartamento observando tudo e todos, resmungando sozinha, e , ao ver-me, sempre soltava uns grunhidos ininteligíveis.
Supersticiosa que sempre fui, atribuí à velhinha minha má sorte, pois desde que vivia ali minha vida andava para trás ou estagnava, e eu dormia muito mal e tinha pesadelos. Um dia estourou um cano d’água em sua casa, que inundou o prédio do terceiro andar para baixo, obrigando as várias senhoras a saírem com seus rodos pelos corredores, enquanto ela tudo fiscalizava. Tinha ela um sobrinho que me parecia um “mucamo”, uma versão masculina das criadas de companhia de antigamente. Precavidamente, comprei uma arruda no vaso, incensos, e comecei a dormir melhor. Assim, fui convivendo com minhas impressões fantasiosas, sempre com medo de, ao estacionar meu carro , encontrar na vaga frente à minha uma vassoura, prova cabal, desculpem o trocadilho. Ao finalmente mudar-me do prédio contei minhas impressões ao porteiro que, rindo, disse ser ela devota de Nossa Senhora Aparecida, fervorosa católica que vive rezando novenas e ajudando aos pobres. Estimada por todos no prédio, ainda sustentava os estudos do sobrinho. Ah, bom...a gente se engana, né?
Ainda lembrei-me de uma dessas historiazinhas safadas da infância que alguém sempre contava com uma voz tenebrosa, onde havia duas inocentes criancinhas e de repente aparecia uma velha...(suspense), com um facão na mão! (voz engrossando e subindo o tom – suspense prolongado ) ...passando manteiga no pão... ( voz singela e cínica ) . Ora vá! De qualquer forma, mudei-me aliviada por não ter mais a impressão de que um dia, ao sair do elevador, ela da porta me convidaria a experimentar uma “poção”... com cobras, lagartos, sapos, asas de morcego...essas coisinhas básicas da culinária de Madame Min e Cia. Esconjuro! Valei-me , meu pé de arruda!
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Prosa em Copacabana
Por Maricéa Martins Zwarg
Numa tarde de domingo, em Copacabana, no calçadão
Um mendigo proseava a gestos largos com Drummond
Que parado, refletia um texto em consideração
Àquele que com eloqüência o chamava à conversação
A pauta era a beleza, o mar, o céu e a natureza do Rio
E então essa paisagem os levava ao piano do Tom
E o mendigo então pensava : “que grande sujeito
esse que ouve com tanta atenção”
Talvez se improvise aqui uns versos de ocasião
Mas quando o tom perdia o mendigo ensimesmava
Na tarde que caía com as sombras da prostituição,
das meninas, dos moleques, da sujeira das ruas
dos crimes, do abandono, lembrando a própria condição
E Drummond tudo entendia pois aquele era seu dia a dia
Esses mesmos esquecidos são agora sua companhia
E os dois um tanto cansados, assim sentados lado a lado
Impotentes, calados, varando a noite a imaginar
Uns versos pra resgatar a Princesinha do Mar...
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O vazio
Por Isabel Paixão
23:30 da noite e um imenso vazio perambula por ruas da Zona Sul. É o meu ônibus. Somente eu e algumas outras pessoas sonolentas voltando de uma Quarta-feira tediosa. O vazio vai tomando todo o ônibus aos poucos, à medida que os passageiros vão chegando a seus destinos.
Vou tentando fixar o olhar em algo interessante do lado de fora da minha janela. Numa tentativa de fugacidade, não muito bem sucedida, passo a observar o cobrador. Sua cabeça vacilante pendulando entre um espasmo e outro do enorme vazio de metal.
Distraída e vazia, tanto quanto aquele ambiente, não percebi, mas me desligava pouco a pouco daquela realidade perdida.
Quando de repente, senti algo a tocar meus cabelos. Pude sentir que alguém no banco de trás estava acariciando uma mecha mínima de meu enorme emaranhado castanho escuro. O prazer e o medo do desconhecido se condensavam e congelavam meu corpo, abandonando-me inerte e paralisada. Enquanto isso, minha mente borbulhava e preenchia o vazio daquele ambiente com todo tipo de pensamentos e suposições. Quem poderia ser? Por que e para que tocar em mim assim, justo em meu cabelo?
Tenho de confessar o quanto aprecio os carinhos em meus cabelos. Agrada-me, em muito quando alguém os envolve em seus dedos arrastando-os para baixo, como quem tenta desembaraçá-los, acabando por complicá-los ainda mais. De certo é o carinho que me ganha fácil.
Devia de ser, então, um homem deveras sensível, carinhoso e gentil. Por que não? Mas, e se fosse um tarado? Desses que tem distúrbios hormonais e psicológicos?
Não. Se fosse um tarado de verdade, teria me abordado de forma abrupta e cruel. Já teria sentado ao meu lado e me envolvido com suas mãos inescrupulosas! De certo que não é um tarado!
Não tive nem muito tempo para ficar aliviada quando me veio à mente:
Mas, e se for uma criança? Estaria eu tendo ilusões amorosas com um garotinho de 11 anos! Ou pior, com uma menininha de 4?! Porém, a essa hora da noite, garotinhos de 11 anos e menininhas de 4 não andam sozinhos em ônibus, nem em nenhum outro transporte público. Logo, conclui-se que estariam eles acompanhados por um adulto, o qual já os teriam censurado por mexer em cabelos de estranhos, impedindo-os de continuar. De certo é um rapaz!
Meus pensamentos recheavam e coloriam o ambiente, embalando o sono do cobrador e a vagarosidade do motorista.
Deveria acabar logo com aquele tormento que instigava a minha curiosidade:
Quem seria e como seria o tal rapaz?!
Respirei fundo como se pudesse tomar de volta todas as fantasias flutuantes que bailavam no ar. Engolindo-os todos, deixando o ambiente vazio e pálido novamente. Agora, cheia de coragem, virei o corpo com o intuito de voltar-me para trás. Mas, não consegui. Ao tentar fazê-lo, pude sentir que estava presa pela mecha. Agora, uma dor queimava pontualmente a região capilar e, como num reflexo, desvencilhar-me daquele ser era uma questão inadiável. Toda a admiração e encanto que eu criara por aquela pessoa iam se esvaindo de mim.
Inclinei o corpo para frente e com um tanto de força conseguia me desvencilhar pouco a pouco. Pude ouvir ainda, alguns fios se partindo e uma parte deles ficando com a tal pessoa.. Não mais unidos pela mecha, tudo acabara ali, antes mesmo de começar.
Voltei meu corpo para trás, desta vez com o intuito de virar-me para insultá-lo.Mas, tive uma grande surpresa.
O que? Como assim?
Não havia ninguém! Eu estava só naquele ônibus. Ainda sem compreender, olhei meio que instintivamente para as costas de minha cadeira, e então, pude ver...
Um simples e enferrujado parafuso, envolto por um emaranhado de fios castanhos escuros.
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Pipoca da embalagem rosa
Por Liana R. Dantas
As pipocas de embalagem rosa são uma verdadeira obsessão. É um retrato metaforizado das minhas compulsões, que não irei tece-las todas neste espaço já que não estamos em uma “Oficina de Epopéias”! Como a caneta Bic, temos pipoca de embalagem rosa espalhada por tudo que é canto.
Determinada e confiante, resolvi começar um tratamento para...digamos, a redução corpórea – já que ‘emagrecer’ carrega em si muita responsabilidade!- com um médico excelente e por hora, custoso, já que também é médico de ‘fenômenos’, enfim. Portanto, tento não pensar em pipocas!
A pipoca de embalagem rosa e a prática
Um outdoor da ‘fulana modelo’ me incomodara. Que menina linda e magra! Que ódio. ‘Há uma esperança’, pensei. ‘Estou fazendo por onde’, completando. E me confortei. E de repente, avistei um vendedor de pipoca da embalagem rosa passando. E perdendo os meus referenciais sintagmáticos, esquecendo certos compromissos, não resisti! ‘O da pipoca rosa!’ Gritava pela rua. ‘Alou, da pipoca!’ E nada. Comecei, então, a sentir raiva daquele vendedor (de pipocas rosas), que desprezava fiéis compradores como eu, oferecendo o produto a todos os taxistas que rejeitavam a dita cuja.
‘Deus só pode estar me castigando! Só porque estou restrita a alguns alimentos, Ele não quer que eu me aproxime do vendedor de pipocas’, pensei baixinho em momento de desespero.
‘Ô moço da pipoca’. ‘Ei! Não quer vender?’. ‘Meu filho, eu quero pipoca!’. E ele, continuava sua peregrinação pipoquística pela Primeiro de Março. Classe, educação, senso do contexto situacional já não exista mais, agora só restara o constrangimento de Pedro, meu amigo ao meu lado. ‘Olha lá, segue o cara!’ disse a Pedro. E ele foi correndo com suas pernas de girafa atrás da pipoca e do menino.
Alcançando o menino vendedor, Pedro parou e não disse nada a ele. E um ficou de frente para o outro, como um espelho. Descontrolada, não pude compreender a cena, achei um pouco estranho, mas estava tão absorta da realidade, que tive uma chegada à lá personagem de Agnaldo Silva, porém com muito mais graciosidade: ‘Querido, estou te chamando há séculos desde lá do Paço, você não ouviu?. Hein?’ Sorri, contente por o ter alcançado. Freneticamente procurando a dinheiro, mais um ‘Hein ?’. E não ouvi a voz de ninguém. Nem de Pedro, nem do menino.
Ele, o menino, sorria sem graça, só fazia um gesto com o indicador indicando que a pipoca custava um real. O menino, vendedor de pipoca da embalagem rosa, de marca Come-come, era surdo!
Meus sentidos ficaram dormentes. Acredito que o de Pedro também. Esta altura eu já estava rouca. Comi a pipoca em silêncio, rindo de desespero, quase engasgando. E pensei em nunca mais furar a dieta!
Deus é sagaz. E ‘Fulana do outdoor’, aqui vou eu!
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O degrau
Por Julio César Corrêa
Levei algum tempo para entender a razão daquele degrau na porta do Nova
Capela, o quartel general dos boêmios, ali na Avenida Men de Sá. Cá pra nós,
aquele pedaço de mármore preto já é bem antipático. Mas sempre achei também
que colocar um degrau na saída de um bar boêmio, palco de porres
surrealistas, fosse uma maldade crudelíssima.
O maldito degrau nunca fez mal nem a mim, nem a minha turma de antigos
freqüentadores. Mas sinto minha preocupação aumentar agora, quando o chamado
renascimento da Lapa, tem atraído uma nova geração de boêmios. Gente bonita,
famosa e moderna, vinda lá da zona sul. São estressados, falam alto e riem
um riso de vitrine. Como aqueles antigos caçadores ingleses, no continente
africano, eles vêm à Lapa atrás de programas exóticos. E o degrau malvado
não quer saber, derruba sem piedade.
O problema é sério e as autoridades precisam fazer alguma coisa, antes que
o pior aconteça. Já tem até um mendigo negro, conhecido por Gudnaite, que,
nas madrugadas, fica à espreita, esperando faturar algum trocado, fazendo
curativos naqueles que se ferem nas quedas espetaculares.
E o danado do degrau tem derrubado muita gente.
O triatleta e modelo Kiko Pallentine, por exemplo, um garotão de quase dois
metros de altura, ficou de quatro na calçada. A promoter e modelo Paulinha
Martine Blanco e o modelo e estilista Silvinho Dreher também desabaram. O
multimídia-roteirista-diretor de teatro-escritor esotérico-professor de ioga
e, nas horas vagas, funcionário público, Duda Bacardi, quebrou o nariz e o
celular numa queda histórica. Enquanto a atriz-vencedora de reality
show-capa da Playboy e top model Veronique Cointreau fraturou suas nádegas
avaliadas em US$ 100 mil.
Não daria para enumerar aqui todas as vítimas do degrau diabólico. Mas em
nenhuma queda houve tanta badalação, como na da cineasta-modelo e lésbica
nas luas cheias, Ângela Smirnoff. Membro de uma família nobre da Rússia,
Ângela chegou cercada de repórteres, socialites e deslumbrados de plantão.
Após encarar uma feijoada nocauteadora, regada a muita caipirinha, a boêmia
de sangue azul não foi alertada sobre o terrível degrau e acabou beijando a
calçada da Men de Sá, onde pisam e escarram plebeus de todos os tipos.
E ainda passou pelo vexame de ser socorrida pelo Gudnaite.
- Vai um mercúrio cromozinho aí, ô madame?
A queda da nobre escritora foi a gota d’água e marquei uma reunião de cúpula
com a minha turma, para iniciarmos um abaixo-assinado, uma passeata, um
abraço em torno do quarteirão. Falou-se até em irmos a Brasília. Tudo para
dar cabo daquele degrau maldito.
Mas após muito papo e muitos goles (não necessariamente na mesma proporção),
encontramos a razão de ser daquele degrauzinho safado. Entendemos que ele
precisa existir para que nós, testemunhas de um Rio mais tranqüilo e feliz e
que procuramos no Nova um restinho de lembranças daqueles dias cada vez mais
distantes, ao sairmos, sejamos obrigados a parar, respirar e encontrar
forças para encarar a atual realidade carioca.
Concluímos também, que o degrauzinho só derruba os falsos cariocas, os que
nada têm a ver com o espírito do Rio que conhecemos. Só caem os apressados,
os deslumbrados, os de nariz em pé e os sem-jogo-de-cintura. Nós não
corremos este risco.
O quê? Parece conversa de bêbado?
Ôgh! (soluço) E é.
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A primeria vez
por Elis Galvão
Muito bem, o namoro avançou pelos dias. Celsinho não fazia nada além de dá um beijinho na bochecha de Joana dos Passos e pegar sua mão. Ela queria mais, queria ser arrochada, beijar de língua, tirar um sarrinho. Ele era um respeitador. Namoravam no alpendre da casa dela, sempre próximos da luz do candeeiro, e Joana dos Passos ficava louca pra ir pro escurinho. Sempre que ela puxava o rapaz para o canto: “Joana mulé, tamos na casa dos teus pais, não podemos ficar nos escuros.”
Joana dos Passos seguia conversando com a mãe sobre as coisas da vida de casado. Na casa de Celsinho, ninguém falava sobre das intimidades a dois, mas o pai já andava apressando o rapaz: “Celsinho meu filho, você já está enrolando há dois anos nesse namoro tá na hora de pedir a moça né.” O rapaz pediu, e, claro, ela aceitou.
No dia do casamento, ela usava um vestidinho branco de chita com babados e sua boca estava mais vermelha do que o coloral que ela passou. Ele, calça de tergal azul e camisa branca de mangas. Houve uma festança. Foi aquele almoço com todos os familiares e conhecidos, muita farrofa, arroz tapa parede – que tem uma consistência igual a do arroz ao leite - galinha, peru e carne de boi assada. Finalzinho de tarde, os dois foram para a casa que o pai de Celsinho construiu para eles. A felicidade de Joana dos Passos era tão grande. Quando chegaram na casa ela começou a tirar a roupa.
- Que isso mulé, que que tu tá fazendo?
- Como assim Celsinho?
- Tu tá maluca é?
- Eu?
- É mulé, tu.
Joana tirou o sutiã e puxou a calcinha.
- Mulé, eu vou contar pro teu pai, vou contar tudinho disso dessas astúcias.
Ela, paciente, foi se aproximando dele, foi ajeitando as coisas.
- Joana, tu... tu tá fazendo o que?
- Tou fazendo o que a gente faz quando casa.
- E quando casa tem que tirar a roupa é? Vixe Maria!
- Homi, deixe de falar e vamos ali pra cama, vem.
- Sei não visse.
- Vem.
- Joana tu tá em cima de mim?
- Tou!
- ai ai ai ai ai Joana.
- ú ú ú ú Celsinho.
- Joana, Joana? – Celsinho no meio do gozo.
- Que foi homi?
- Vamos guardar um pouquinho pra amanhã pra não se acabar.
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O assalto
Por Francisco Malta
O relógio da praça General Osório, marcava vinte horas e trinta e cinco minutos quando Selminha Self-Service atravessou a calçada em direção ao supermercado Zona Sul.
A traveca desfilou até a seção de Horti -Frutti e num fluxo de segundos, a bicha começou a gritar:
− Assalto! Assalto!
Foi um tumulto só. As pessoas se jogavam pelo chão, corriam, escondiam e se acotovelavam pelo supermercado. A traveca não parava de gritar, os seguranças chegaram apressados ao lado do gerente e não conseguiam avistar nenhum assaltante. Foi então que o gerente indagou:
− O que aconteceu menina? Por que você está gritando: Assalto...Assalto.
E a traveca continuava histérica .
− O preço da mandioca...Olha o preço da mandioca. O senhor ainda vai querer me convencer que isto não é um assalto?
Bateram boca um tempão. As distintas senhoras começaram a vaiá-la. O gerente teve então a idéia de convidá-la para um particular. A traveca subiu para o escritório com o gerente e os demais seguranças.As senhoras continuavam enfurecidas. De repente houve um silêncio profundo. Quinze minutos depois a traveca desceu a escada com algumas mandiocas na mão. Discutiu com os fregueses.Saiu.Atravessou a praça e seguiu desfilando pela Visconde de Pirajá com as mandiocas na mão.
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Duelo
Por Ronize Aline
Vitorino observava o outro a distância; e era por ele observado. Estavam assim há duas horas, pelo menos. Não poderiam continuar por muito mais tempo e seria ele, Vitorino, a tomar a iniciativa. Respirou fundo, estalou os dedos, cuspiu uma saliva ácida no chão de terra batida. Deu uma última olhada em suas botas e partiu. Começou com um primeiro passo - é assim que começam as grandes caminhadas. Não era uma longa distância que os separava, mas a tensão deixava o ar pesado e o percurso difícil de ser cumprido. Outros passos se seguiram; Vitorino fazendo questão de manter o contato visual. Temia que, se piscasse, o controle - que julgava seu - lhe escaparia. Ficaram tão próximos que podiam sentir a respiração ofegante um do outro. Uma última tomada de fôlego e Vitorino estava pronto para a derradeira ação. Sem dar tempo para que o outro reagisse, saltou e postou-se soberano sobre o dorso nu daquele alasão arisco. O duelo tinha seu vencedor.